Um estudo do RaboResearch, braço de pesquisas do Rabobank, projeta que um episódio forte de El Niño pode elevar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em cerca de 0,83 ponto percentual em um intervalo de seis meses. O levantamento foi divulgado em 20 de agosto de 2026.
Assinado pelos economistas Mauricio Une e Renan Alves, o trabalho combinou dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do próprio banco. O foco foi medir como as alterações climáticas afetam a produção agropecuária e, consequentemente, os preços dos alimentos no Brasil.
Impacto começa no campo e chega gradualmente ao consumidor
Segundo o estudo, frutas, legumes e verduras – classificados como alimentos in natura – são os primeiros a sentir os efeitos da mudança no regime de chuvas e temperaturas. Na sequência, a pressão alcança produtos semi-elaborados e industrializados.
Se o evento climático for moderado, a inflação acumulada em 12 meses dos in natura pode subir até 13,4 pontos percentuais no sexto mês, trazendo contribuição direta de 0,36 ponto percentual ao IPCA e impacto total de 0,41 ponto percentual. Já em um El Niño classificado como forte, as pressões estimadas após seis meses seriam:
- 0,53 p.p. oriundos dos alimentos in natura;
- 0,20 p.p. dos semi-elaborados;
- 0,11 p.p. dos industrializados.
No agregado, esses valores somam os 0,83 ponto percentual projetados para o IPCA cheio.
Probabilidade de evento forte atinge 80% no fim do ano
O monitoramento do fenômeno utiliza o Índice Oceânico Niño (ONI). Valores acima de 1 °C na média móvel trimestral indicam um El Niño forte. Para agosto, a NOAA atribuía 57% de chance de ocorrência forte e 16% de episódio muito forte. A probabilidade de um evento forte salta para aproximadamente 80% no último trimestre de 2026.
Regiões mais suscetíveis
Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém aparecem como as áreas metropolitanas com maior sensibilidade de curto prazo aos choques de preços. Em Salvador e Recife, a alta tende a ser inicialmente mais branda, porém prolongada.
Tempo de repasse e desafios para a política monetária
As projeções indicam que o pico da inflação decorrente de um El Niño forte deve ocorrer entre três e seis meses depois do choque climático. O Rabobank ressalta que, por se tratar de um movimento de oferta, a eficácia da política de juros para conter esse tipo de pressão é limitada.
Com informações de Portal do Agronegócio

