O ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixou, no fim de junho, a carceragem da Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília e foi levado para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”, no Complexo Penitenciário da Papuda. A medida, autorizada em 25 de junho de 2026 pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu ao alerta de investigadores sobre o risco de que Vorcaro fosse morto ou incentivado ao suicídio antes de prestar novos depoimentos.
Decisão amparada em relatórios de risco
Em manifestação encaminhada ao STF, a PF afirmou que as instalações da superintendência não comportam a custódia prolongada de detentos considerados de “alto risco”. Segundo o relatório, permanecer no local deixava Vorcaro vulnerável a possíveis atentados ou pressões externas, já que a estrutura foi projetada para estadias curtas.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) concordou com o parecer, destacando a possibilidade de “queima de arquivo” caso o investigado continuasse onde estava. Também pesou o histórico recente de um colaborador da mesma investigação: um homem identificado como “Sicário”, integrante do grupo de segurança informal apelidado de “A Turma”, tentou suicídio dentro da PF em Minas Gerais e morreu dias depois no hospital.
Dois acordos de colaboração rejeitados
Vorcaro está preso preventivamente desde março, no âmbito da Operação Compliance Zero, que já teve nove fases. Nas semanas que antecederam a transferência, ele teve a segunda proposta de delação premiada recusada pela PF e pela PGR. Os órgãos avaliaram que o investigado apenas confirmava informações já descobertas por perícia de celulares e documentos apreendidos, sem oferecer fatos novos.
Com as negociações encerradas e sem perspectiva imediata de um terceiro acordo, investigadores afirmam que a vulnerabilidade de Vorcaro cresceu. Para eles, eventuais interessados em seu silêncio teriam motivação e tempo para tentar impedir que ele revele dados ainda não mapeados — a própria PF calcula ter avançado cerca de 15 % no material apreendido.
Por que não a prisão comum nem a domiciliar
Transferi-lo para um presídio convencional foi descartado por dois motivos. Primeiro, a integridade física: em uma cela coletiva, o ex-banqueiro ficaria exposto a outros detentos, com menor controle de segurança. Segundo, a preservação das investigações: na cadeia comum, ele poderia usar canais informais de comunicação para orientar comparsas ou destruir provas.
A defesa chegou a pedir prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, alegando ameaças contra o réu e sua família após as negociações de delação. O ministro André Mendonça indeferiu o pedido, considerando que o grau de risco para o processo e para terceiros é incompatível com medidas menos restritivas.
Estrutura da Papudinha e novas exigências
O 19º Batalhão da PM foi apontado como o local mais apto a equilibrar segurança física, isolamento e capacidade de monitoramento. A decisão determina incomunicabilidade total entre Vorcaro e outros detentos ligados à Operação Compliance Zero. Os militares responsáveis devem avisar imediatamente o STF sobre qualquer ameaça, intimidação ou tentativa de interferência nas investigações.
Na prática, a ordem transformou a unidade policial em linha direta com o Supremo, mantendo o caso sob vigilância reforçada. Câmeras de alta definição, protocolos de revista e o afastamento de outros presos considerados de risco foram listados como garantias adicionais.
Investigação continua
Acusado de chefiar uma estrutura clandestina de espionagem e intimidação que envolveria até agentes da PF, Vorcaro segue como peça central da operação. Para os investigadores, mantê-lo vivo e incomunicável é crucial para obter eventuais provas ainda não descobertas em milhares de arquivos digitais e documentos físicos que permanecem em análise.
A custódia no batalhão não encerra o impasse, mas, segundo fontes ligadas ao processo, reduz as chances de interferência externa enquanto o material apreendido continua sob perícia.
Com informações de Gazeta do Povo

