Brasília, 11 de agosto de 2026 – O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, assumiu papel central na escalada de atritos entre a administração de Donald Trump e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição em outubro. O presidente brasileiro reclamou publicamente de que Rubio “age diferente do que combinamos com Trump”, sinalizando preferência por um canal direto com a Casa Branca.
Pressão diplomática e comercial
Rubio, crítico de governos de esquerda na América Latina, defende postura mais dura de Washington na região. Segundo o professor Maurício Fronzaglia, da Universidade Mackenzie, essa atuação reflete uma versão atualizada da Doutrina Monroe, apelidada de “Doutrina Donroe”, que combina pressão política, designações antiterroristas e instrumentos de comércio exterior.
Nesse contexto, o Departamento de Estado passou a influenciar outras pastas do governo Trump. Exemplo recente foi a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, imposta pelo Escritório do Representante Comercial (USTR) sob o argumento de práticas comerciais injustas e de censura ao discurso político – ponto também usado por Rubio para criticar o país.
Medidas contra autoridades brasileiras
Desde que assumiu o cargo, o secretário de Estado revogou o visto do ministro do STF Alexandre de Moraes (sanção econômica revertida depois pelo Tesouro), de integrantes dos governos petistas ligados ao programa Mais Médicos e do advogado-geral da União, Jorge Messias. Rubio também incluiu as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas.
Ainda classificou o Brasil como “governo não amigável”, ao lado de Cuba e Nicarágua, e acusou Lula de colocar “o ego acima dos interesses nacionais” nas negociações sobre o novo tarifaço.
Episódios mais recentes
Na semana passada, Washington cancelou o visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em resposta à demora de Brasília em conceder agrément ao indicado norte-americano para a embaixada em Brasília, Daniel Perez, aprovado depois pelo Senado dos EUA. A medida também retaliou a negativa de vistos a dois funcionários do governo norte-americano que viriam ao Brasil. O Itamaraty alegou tentativa de interferência no processo eleitoral; a gestão Trump negou a acusação.
Em contrapartida, o chanceler Mauro Vieira classificou as declarações de Rubio sobre o Brasil como “grosseiras e arrogantes”, enquanto Lula chamou o secretário de “bolsonarista que não gosta do Brasil nem da América Latina”.
Rede de embaixadores ligados a Rubio
Filho de imigrantes cubanos e primeiro latino a chefiar o Departamento de Estado, Rubio nomeou aliados de origem hispânica para postos estratégicos. Além de Perez em Brasília, Bernie Navarro foi para o Peru, Kevin Marino Cabrera para o Panamá e Peter Lamelas para a Argentina. A presença desses diplomatas tem provocado reações da esquerda latino-americana, que os acusa de interferência política.
Efeitos eleitorais
Para a analista Adriana Melo, especialistas em finanças e tributação, os choques podem corroer confiança em áreas sensíveis, como segurança e fluxo de investimentos. No entanto, Lula tenta transformar a disputa em argumento de “defesa da soberania” perante o eleitorado. Já a oposição aponta isolamento internacional do Brasil.
Fronzaglia observa que o endurecimento de Rubio também tem objetivo interno nos EUA, de olho nas eleições legislativas de novembro. No Brasil, o discurso deve ser explorado por Flávio Bolsonaro, que atribui o agravamento da crise à falta de alinhamento de Lula com Washington.
A tensão diplomática permanece sem previsão de arrefecimento, enquanto Brasil e Estados Unidos seguem trocando sanções, críticas públicas e restrições de visto a menos de três meses da eleição presidencial brasileira.
Com informações de Gazeta do Povo

