O agronegócio brasileiro inicia o planejamento da safra 2026/27 sob a perspectiva de um El Niño de intensidade excepcional, cuja chance de ocorrência igual ou superior a 90% foi confirmada por instituições oficiais de monitoramento climático. O fenômeno, previsto para atuar pelo menos até o início de 2027, tende a provocar excesso de chuvas no Sul e estiagem acompanhada de calor no centro-norte do país, elevando o risco de incêndios e comprometendo a produtividade das lavouras.
Impactos regionais distintos
Modelos climáticos para o período de agosto a outubro de 2026 apontam precipitações acima da média para a Região Sul, enquanto Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste devem enfrentar chuvas escassas e temperaturas mais altas. No Sul, o solo encharcado pode atrasar o plantio, favorecer doenças e causar erosão. Já nas demais áreas produtoras o déficit hídrico ameaça pastagens, cultivos em fase de desenvolvimento e amplia a probabilidade de queimadas.
Soja e milho no centro das preocupações
Projeções iniciais ainda indicam colheita numerosa de soja, mas a expansão deve ser mais modesta em razão da incerteza climática. A coordenadora de agronegócios do CSA Advogados, Ieda Queiroz, observa que um El Niño vigoroso adiciona um fator de risco relevante para a temporada, pressionando decisões de plantio, aquisição de insumos e vendas antecipadas. A segunda safra de milho também fica vulnerável, pois depende do calendário da soja e da regularidade das chuvas após o plantio.
Perigos das queimadas
A combinação de calor extremo, baixa umidade e material vegetal seco intensifica a ameaça de incêndios em cultivos, áreas florestais e pastagens. Além dos danos diretos, o fogo pode atingir máquinas, benfeitorias e estoques, além de gerar responsabilidades cíveis, ambientais e administrativas quando houver falhas de prevenção. Manter registros de aceiros, treinamentos e planos de emergência torna-se fundamental para eventuais negociações com seguradoras e órgãos de fiscalização.
Crédito caro e endividamento agravam cenário
Produtores entram na safra com margens comprimidas por custos elevados e financiamento mais oneroso. Segundo Ieda Queiroz, pedidos de recuperação judicial voltaram a subir no primeiro trimestre de 2026, enquanto a inadimplência no crédito rural segue alta. Nesse contexto, quebras ocasionadas por seca, excesso de chuvas ou incêndios podem desencadear renegociações e execuções de garantias, impactando especialmente quem já depende integralmente da próxima colheita para honrar compromissos.
Contratos exigem revisão preventiva
A adversidade climática não exime automaticamente o produtor de suas obrigações contratuais. O sócio do Santos Neto Advogados, Frederico Favacho, lembra que eventos climáticos fazem parte dos riscos inerentes à atividade rural e que existem instrumentos de mitigação, como seguro agrícola e diversificação produtiva. Cláusulas de caso fortuito e força maior precisam ser avaliadas individualmente, bem como volumes comprometidos, prazos de entrega e garantias vinculadas.
Em vendas antecipadas, a recomendação é evitar comprometer toda a produção estimada, preservando margem de segurança para oscilações de rendimento. A mesma cautela vale para operações de barter, CPRs e contratos a termo.
Documentação pode ser decisiva em disputas
Laudos agronômicos, registros meteorológicos, imagens das lavouras e comunicações formais com compradores, seguradoras e credores devem ser reunidos desde o início do evento adverso. Provar a extensão das perdas e as medidas de mitigação adotadas pode facilitar renegociações e sustentar eventual defesa judicial.
Especialistas alertam que o maior perigo não reside necessariamente em uma quebra generalizada de safra, mas na soma de perdas regionais, endividamento elevado e contratos já firmados. Frente a esse quadro, gestão integrada de riscos, revisão contratual, contratação de seguros e prudência nas vendas futuras são apontadas como medidas essenciais para reduzir a vulnerabilidade da produção 2026/27.
Com informações de Portal do Agronegócio

