O Plano Nacional de Mineração 2050, apresentado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), projeta que o Brasil se tornará um dos maiores produtores de minerais críticos e terras raras nas próximas décadas. A estimativa, porém, baseia-se em dados internacionais que foram revisados para baixo e não contam com pesquisas específicas realizadas no país.
Notas dos ministérios de Minas e Energia e da Ciência, Tecnologia e Inovação citam reservas brasileiras de 21 milhões de toneladas métricas de terras raras, número atribuído ao Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Em 2026, o próprio USGS reduziu essa estimativa para 11 milhões de toneladas. Já o Sumário Mineral 2025 da Agência Nacional de Mineração (ANM) aponta 11,4 milhões de toneladas, correspondentes a 13,9% das reservas globais.
Apesar dos números, a produção nacional continua ínfima. Em 2024, o Brasil produziu apenas 20 toneladas de terras raras, enquanto a produção mundial alcançou 390 mil toneladas, segundo levantamento do Ipea com dados da ANM.
Especialistas questionam base dos números
Para o geólogo e consultor John Forman, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o principal entrave não é a ausência de recursos, mas a falta de informações confiáveis sobre o subsolo. “Podemos ter muito mais riqueza mineral do que conhecemos, mas não sabemos onde está nem se é economicamente viável”, afirmou.
Forman classifica as metas do plano como “wishful thinking”. Ele lembra que parte das estimativas atuais deriva de estudos dos anos 1950 focados em tório, então visto como combustível promissor para reatores nucleares. Presume-se que, onde há tório, existam terras raras, mas essa relação nunca foi completamente comprovada.
O especialista também distingue recursos de reservas. Recursos indicam apenas a possibilidade geológica de ocorrência; reservas exigem comprovação de volume, teor e viabilidade econômica. “O Brasil praticamente não possui reservas medidas de terras raras. O que temos são recursos que ainda precisam ser pesquisados”, disse.
Objetivos do governo
O plano prevê elevar a participação da mineração no Produto Interno Bruto de 3,3% para 4,8% até 2050 e criar 800 mil novos empregos, totalizando 2,8 milhões de postos. Na reunião do Conselho Nacional de Política Mineral, em 2 de julho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a estratégia reforça a soberania brasileira num “cenário internacional cada vez mais competitivo”.
Após reunião em 10 de julho, Lula declarou que desconhecia o potencial das terras raras e sugeriu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deveria “preocupar-se com o Brasil” e não apenas com a China no setor. O presidente defendeu que o país seja exportador de “inteligência” em vez de apenas matéria-prima.
Desafios para tirar projetos do papel
Transformar um depósito mineral em operação comercial leva, em média, dez anos, segundo Forman. O processo inclui sondagens, estudos metalúrgicos, avaliações econômicas, licenciamento ambiental e obtenção de autorizações. A burocracia e a incerteza regulatória desestimulam investidores e podem congelar projetos por décadas.
A diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira, Patrícia Arantes, acrescenta que áreas ricas em minerais críticos frequentemente coincidem com regiões de agronegócio consolidado, como Cerrado goiano, oeste mineiro e Vale do São Francisco. Para ela, falta coordenação entre os ministérios da Agricultura e de Minas e Energia para garantir segurança jurídica a ambos os setores.
Especialistas defendem investimentos contínuos em mapeamento geológico, pesquisa mineral e formação de profissionais para que o potencial estimado possa, de fato, transformar-se em reservas comprovadas e produção efetiva.
Com informações de Gazeta do Povo

