O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou em 20 de julho um documento de 100 páginas que apresenta Cuba como um dos maiores riscos atuais à segurança nacional norte-americana. O texto foi divulgado em vídeo pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que afirmou que “praticamente todos os grupos terroristas violentos e radicais de esquerda do hemisfério ocidental contaram, em algum momento, com apoio de Cuba”.
Principais argumentos do relatório
Intitulado “Cuba: a capital do comunismo do século 21”, o relatório sustenta dois pontos centrais:
- a ilha teria patrocinado movimentos revolucionários e socialistas desde 1959, fomentando a “subversão da civilização ocidental” em diversas regiões;
- Cuba continuaria hoje a operar como base de atividades consideradas subversivas, inclusive por meio de espionagem nos EUA e influência em setores da esquerda norte-americana.
O documento relaciona diretamente a Revolução Cubana aos atuais movimentos progressistas nos Estados Unidos e cita episódios históricos, como a Conferência Tricontinental de 1966, para argumentar que existiriam laços entre Havana e grupos radicais norte-americanos desde a década de 1960.
Espionagem e casos citados
O Departamento de Estado recorda infiltrações cubanas em altos escalões de Washington. Entre os exemplos mencionados estão:
- Víctor Manuel Rocha, ex-embaixador dos EUA na Bolívia, condenado a 15 anos de prisão por espionar para Havana;
- Ana Belén Montes, ex-analista da Agência de Inteligência de Defesa, que admitiu repassar informações confidenciais ao governo cubano.
Influência sobre ativismo interno
O texto federal também aponta Cuba como “força invisível” por trás de protestos recentes nos EUA, incluindo manifestações após a morte de George Floyd e a ascensão da Antifa. Influenciadores como Hasan Piker e Irsa Hisri são citados por participarem de viagens de “turismo revolucionário” à ilha, classificadas pelo relatório como parte de uma campanha de propaganda cubana.
Resposta de Havana
O governo cubano rebateu com veemência. O presidente Miguel Díaz-Canel qualificou o documento como “panfleto propagandístico medíocre” e declarou: “Se algum país espionou e agrediu de forma obscena, foram os EUA contra Cuba”.
Críticas acadêmicas
Para Michael Bustamante, professor associado da Universidade de Miami, o relatório faz conexões frágeis entre fatos históricos e o presente. O pesquisador reconhece a atuação cubana em apoio a insurgências no passado, mas questiona a tese de ameaça existencial aos Estados Unidos, classificando a linguagem do material como “vaga” ao estabelecer relação de causa e efeito.
Possíveis motivações
Bustamante avalia que o timing da publicação tem componente eleitoral interno, fornecendo argumentos ao governo Trump na disputa política. Ele também não descarta que a caracterização de Cuba como perigo iminente possa servir de base para medidas mais duras no futuro.
A divulgação ocorre em meio à pior crise energética da ilha desde que Caracas deixou de fornecer petróleo em janeiro, situação agravada por ameaças de sanções americanas a países que exportem combustível para Cuba.
O Departamento de Estado declarou que seu objetivo é “contar de forma completa” os vínculos entre Cuba e o extremismo de esquerda nos EUA, tema que considera “uma das grandes histórias não contadas” das últimas seis décadas.
Com informações de BBC News Brasil

