O volume de empréstimos com juros subsidiados voltou a crescer durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e alcançou 43,1% do estoque total de crédito em março de 2026, segundo dados do Banco Central. Trata-se do maior percentual desde o fim de 2019.
Conhecido como crédito direcionado, esse tipo de financiamento tem taxas menores, prazos mais longos e destinação obrigatória a segmentos como habitação, agricultura e infraestrutura. Os recursos costumam contar com subsídios públicos, garantias oficiais ou fontes de captação mais baratas.
Impacto sobre a política monetária
Ao analisar o cenário na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) de 29 de abril, o Banco Central avaliou que a expansão do crédito dirigido, somada às dúvidas sobre a trajetória da dívida pública, “tem potencial de elevar a taxa de juros neutra” e reduzir a eficácia da política monetária. A taxa básica Selic segue em 14,5% ao ano, o segundo maior juro real do mundo.
Como parte relevante dos financiamentos não está indexada à Selic, o BC sustenta que precisa manter a taxa num patamar mais alto para conter a inflação. A dinâmica foi comparada em 2023 pelo então presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, ao sistema de “meia-entrada” no cinema: quanto maior a parcela de ingressos com desconto, maior o valor cobrado pelo ingresso integral.
Condições de custo
Entre março de 2011 e março de 2026, a taxa média do crédito direcionado foi de 9,3% ao ano, contra 38,8% ao ano nas operações com recursos livres — quase quatro vezes mais cara.
Linhas que puxam o crescimento
Durante o atual governo foram anunciados programas subsidiados para máquinas agrícolas, Minha Casa, Minha Vida, taxistas e motoristas de aplicativo, Plano Safra, renovação de caminhões e ônibus, microempreendedores de baixa renda, setores afetados por tarifas elevadas e conflitos internacionais, além de iniciativas voltadas a reformas residenciais, renegociação de dívidas e projetos ambientais.
Críticas e alternativas
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o Executivo deveria priorizar um corte mais intenso de gastos em vez de ampliar linhas específicas de crédito, permitindo uma queda generalizada dos juros. Ele argumenta que a estratégia atual “atrapalha o Banco Central” e traz benefícios apenas de curto prazo.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) concorda que a participação maior do crédito direcionado reduz a potência da Selic, mas ressalta que o avanço recente é menos acentuado do que o observado no início da década passada, quando chegou a superar 50% entre 2016 e 2017.
Comparação internacional e dívida pública
Estimativas do BC indicam que o Brasil tem proporção de crédito subsidiado bem acima de países como México (26%), Colômbia, China, Coreia do Sul e Peru, onde o número costuma ficar abaixo de 5%. O juro elevado também eleva o custo da dívida pública, que atingiu cerca de 80% do PIB, o maior nível em cinco anos.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou em audiência no Senado que o país apresenta características “idiossincráticas” que mantêm o juro real próximo de 10% ao ano e defendeu reformas para melhorar a transmissão da política monetária.
Com informações de G1

