Washington, 6 de julho de 2026 – Começam hoje as audiências públicas do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que podem definir a aplicação de uma tarifa extra de 25% a produtos brasileiros, proposta pelo governo Donald Trump com base na Seção 301 da lei comercial americana.
Representantes da indústria e do agronegócio do Brasil participam das sessões para argumentar que a medida afetaria cadeias produtivas integradas e elevaria custos também para empresas e consumidores norte-americanos. Equipes técnicas dos dois governos devem se reunir ainda nesta semana para preparar uma última rodada de negociações de alto nível antes de 15 de julho, prazo para a decisão final de Washington.
Indústria lista impactos bilaterais
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) lideram a defesa do setor manufatureiro. Estudo da CNI aponta que, se a tarifa avançar:
- 31,6% das exportações brasileiras aos EUA passariam a pagar 37,5% de imposto (25% da nova medida mais 12,5% relativos a outra investigação sobre trabalho forçado);
- 35,2% de toda a pauta vendida ao mercado americano seria atingida pela sobretaxa;
- Com as tarifas já vigentes da Seção 232, 54,1% das exportações ficariam sujeitas a algum acréscimo tarifário.
Durante a audiência, a Fiesp pretende refutar quatro pontos do inquérito dos EUA:
- Propriedade intelectual – redução do acervo de patentes pendentes no INPI e reforço da fiscalização contra pirataria;
- Tarifas de importação – quase metade das compras oriundas dos EUA entra hoje no Brasil com imposto zero ou reduzido por regimes especiais;
- Desmatamento – expansão agrícola baseada em produtividade, não em avanço sobre florestas;
- Relação bilateral – defesa de maior integração comercial em vez de novas barreiras.
Para Roberto Azevêdo, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp e ex-diretor-geral da OMC, “a prática brasileira não é discriminatória, desleal nem ilegal”. Ele avalia que a cobrança adicional “aumentaria custos nas duas pontas e não solucionaria as questões levantadas pelo USTR”.
Máquinas e equipamentos
A Abimaq pedirá a exclusão total do setor. Os EUA respondem por cerca de 25% das vendas externas brasileiras de máquinas, mas as exportações caíram mais de 9% em 2025 após tarifas anteriores. Segundo a entidade, 82% dos embarques ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico, evidenciando a integração produtiva. “É difícil substituir fornecedores que desenvolvem projetos de longo prazo e exigem certificação”, afirma a diretora de Comércio Exterior, Patrícia Gomes.
Siderurgia
O Sindicato da Indústria do Ferro em Minas Gerais (Sindifer) solicitará a retirada do ferro-gusa da lista. O insumo responde por 83% das vendas externas do segmento para os EUA e, de acordo com o sindicato, é fundamental para siderúrgicas americanas e produzido no Brasil com carvão vegetal de florestas plantadas, reduzindo emissões.
Agronegócio mira efeitos nos preços
Três cadeias do campo – mel, café solúvel e pescados – buscam evitar a sobretaxa. Participam das audiências entidades como Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Sociedade Rural Brasileira, Cecafé, ABICS, Abiarroz, UNICA, UNEM e Associação Brasileira dos Exportadores de Mel.
Em documento ao USTR, a CNA sustenta que os acordos do Brasil com México e Índia representam 1,9% das importações nacionais e estão em linha com as regras da OMC. A confederação também contesta a relação entre expansão do agro e desmatamento, apontando aumento de 213% na produção de grãos entre 2005 e 2026, enquanto o desmatamento na Amazônia recuou 79% no período. Para a entidade, a tarifa pressionaria a inflação nos EUA e no Brasil e poderia ser substituída por cooperação em agricultura sustentável e biocombustíveis.
Com informações de G1

