Curitiba, 12 de agosto de 2026 – O Paraná caminha para o maior desequilíbrio entre oferta e demanda de trigo já registrado no Estado. A produção estimada para a safra 2026/27 é de 2,2 milhões de toneladas, enquanto os moinhos paranaenses devem consumir 3,85 milhões de toneladas, aponta a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). O déficit de cerca de 1,6 milhão de toneladas deverá ser coberto por compras de outras regiões e do exterior.
Pressão sobre custos e margens da indústria
O Estado concentra o maior parque moageiro do país e responde por aproximadamente 30 % da farinha produzida no Brasil. A menor oferta interna, porém, eleva custos de aquisição, em especial num cenário de preços internacionais mais altos e dólar próximo de R$ 5. Segundo o Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR), o avanço do preço do grão no primeiro semestre não se refletiu na mesma proporção na farinha, comprimindo as margens dos moinhos. O mercado de farelo, importante coproduto, também perdeu força.
“A escalada do grão sem repasse equivalente para a farinha afeta diretamente a rentabilidade”, afirma a presidente do Sinditrigo-PR, Paloma Venturelli, que destaca a necessidade de maior eficiência operacional para preservar a competitividade.
Safra nacional revista para baixo
A escassez não se limita ao Paraná. A consultoria Safras & Mercado reduziu a projeção da colheita brasileira de 7,2 milhões para 5,9 milhões de toneladas, reflexo de menor estímulo ao plantio, seca no Cerrado e perdas em Minas Gerais e Goiás. Com isso, o Brasil pode importar quase 9 milhões de toneladas, volume próximo ao recorde histórico, de acordo com o analista Élcio Bento.
Menor área e produtividade no Paraná
No Estado, a área plantada caiu 13,5 %, de 855 mil para 740 mil hectares. Além disso, há expectativa de redução de 9,5 % na produtividade média, pressionada pelo aumento nos custos de insumos – especialmente fertilizantes nitrogenados. O potencial produtivo deve recuar cerca de 21 %, passando de 2,8 milhões para 2,2 milhões de toneladas.
Importação depende de qualidade argentina
A Argentina permanece como principal fornecedor por proximidade e regras do Mercosul, mas o trigo disponível até novembro apresenta teor mais baixo de proteína e glúten, resultado do menor uso de adubação nitrogenada. A próxima safra argentina é estimada em 20 milhões de toneladas, mas a adequação da qualidade ainda é incerta.
Opções mais caras e riscos geopolíticos
Buscar trigo de melhor qualidade nos Estados Unidos pode custar cerca de R$ 300 por tonelada a mais que o cereal argentino. A oferta norte-americana é a menor desde 1970, limitando o saldo exportável. No Mar Negro, a intensificação do conflito entre Rússia e Ucrânia elevou fretes e seguros, enquanto o Paraguai, outro fornecedor regional, deve reduzir seu excedente exportável de 600 mil para 350 mil toneladas.
El Niño acende alerta para qualidade
A possibilidade de um El Niño forte também preocupa. Históricos indicam que eventos de maior intensidade costumam comprometer a qualidade do trigo, aumentando as incertezas sobre a safra em andamento.
Café Moageiro discute cenário do setor
Os desafios do mercado serão debatidos nesta terça-feira, 11 de agosto, na 9ª edição do Café Moageiro, na Sociedade Rural do Paraná, em Londrina. A programação prevê abertura de Paloma Venturelli e do presidente da Abitrigo, Daniel Kümmel, seguida de apresentação de Élcio Bento sobre as perspectivas da safra e do comércio mundial. A pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, Terezinha Bertol, falará sobre uso de DDG e farelo, e um painel com cooperativas, conduzido por Flávio Turra (Ocepar), encerrará o encontro.
Com produção reduzida, custos elevados e incertezas climáticas, o Paraná entra em ciclo decisivo para garantir trigo suficiente aos moinhos e manter a competitividade da cadeia, que abastece fabricantes de pães, massas e biscoitos em todo o país.
Com informações de Portal do Agronegócio

