São Paulo – Reportagem da revista britânica The Economist, publicada no fim de semana, aponta que a disputa pelo comando dos meios de pagamento digitais ganhou contornos geopolíticos e coloca em risco a supremacia financeira dos Estados Unidos. O texto destaca o Pix, sistema brasileiro de transferências instantâneas, como peça central do debate.
Pressão de Washington sobre o Pix
Segundo a revista, a tensão ficou evidente quando Jamieson Greer, principal representante comercial dos EUA, acusou o Pix de prejudicar companhias americanas, como Visa e Mastercard. Em resposta, o governo de Washington propôs sobretaxa de 25% a produtos brasileiros. A reação em Brasília foi imediata: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o Pix como “conquista nacional”, enquanto o senador Flávio Bolsonaro, da oposição, também descartou abandonar o sistema, embora tenha sugerido restringir futuras conexões internacionais.
Busca global por alternativas
Para a Economist, o episódio reflete o esforço de várias nações para reduzir a dependência de plataformas controladas pelos EUA. A União Europeia já opera a Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA) e desenvolve a carteira digital Wero; o Banco Central Europeu pretende lançar o euro digital até o fim da década. Na China, o governo expande o uso externo do yuan digital e fortalece o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), que em março movimentou recorde diário de 920 bilhões de yuans (cerca de US$ 134 bilhões), alta anual de 20%.
Interligação de sistemas nacionais
Outro movimento ressaltado pela revista é a conexão direta entre plataformas domésticas. O Pix e o UPI, sistema indiano baseado em QR Code já presente em nove países, ilustram como acordos bilaterais podem contornar redes tradicionais de cartões e bancos correspondentes. Para Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell ouvido pela publicação, essa via tornou-se mais viável do que tentar substituir o dólar nos fluxos globais.
Desafio para Visa e Mastercard
A Economist lembra que Visa e Mastercard reconhecem, em relatórios, o risco de regulações que favoreçam arranjos nacionais. As duas companhias mantêm margens operacionais superiores a 50%, mas suas ações têm mostrado menor fôlego nos últimos 12 meses. Como reação, a Visa anunciou investimento de US$ 500 milhões em infraestrutura na Europa e firmou parceria com a chinesa UnionPay, enquanto a Mastercard constrói três centros de dados na França.
Riscos da fragmentação
Embora amplie a autonomia dos países, a proliferação de sistemas locais pode elevar custos e dificultar a integração. O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) alerta que essa divisão ameaça a meta do G20 de tornar pagamentos internacionais mais rápidos e baratos. Estudo patrocinado pela SWIFT projeta queda de até 2,6% no PIB mundial até 2030 se o atual ritmo de fragmentação persistir.
Para a revista, a busca por soberania nos pagamentos está redesenhando a infraestrutura financeira global. Ao pressionar parceiros comerciais, os próprios Estados Unidos podem acelerar um processo que enfraquece a influência que o país consolidou ao longo de décadas.
Com informações de InfoMoney

