O cruzamento entre futebol e política voltou aos holofotes após o Partido Liberal (PL) publicar nas redes sociais, logo depois da convocação de Neymar para a Copa de 2026, um vídeo gerado por inteligência artificial que associa o atacante ao senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Palácio do Planalto. Na peça, o PL afirma que “Flávio é Neymar e Neymar é Flávio”. O parlamentar também divulgou foto com o jogador. Neymar não comentou publicamente a ação.
O episódio reacendeu um debate recorrente no país: a utilização da Seleção Brasileira como capital político. A cada quatro anos, desde 1994, o torneio coincide com o calendário eleitoral, o que amplia o alcance de qualquer gesto de atletas ou autoridades, observa a historiadora Bruna Barenco, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
1958: otimismo de JK e o primeiro título
Durante o governo Juscelino Kubitschek, marcado pelos “Anos Dourados” e pela construção de Brasília, o Brasil conquistou sua primeira Copa, na Suécia. Pelé e Garrincha foram recebidos com festa no Palácio do Catete. JK ergueu a taça Jules Rimet diante de fotógrafos, reforçando o discurso de identidade nacional baseado na miscigenação defendido por Gilberto Freyre e sepultando o chamado “complexo de vira-lata” pós-1950.
1962: Jango recorre à política para garantir Garrincha
No bi mundial do Chile, o presidente João Goulart encaminhou, por meio do então primeiro-ministro Tancredo Neves, carta à Fifa e ao governo chileno pedindo a liberação de Garrincha, suspenso antes da final. O atacante acabou em campo e o Brasil confirmou o título. Foi a última Copa vencida sob um presidente eleito por voto direto antes do golpe militar.
1970: vitrine do regime militar
Com o general Emílio Garrastazu Médici no Planalto, a conquista no México virou peça-chave de propaganda ufanista em plena fase do chamado “Milagre Econômico”. A marchinha “Pra Frente, Brasil” dominou rádios e estádios. Crítico do regime, o técnico João Saldanha caiu a 72 dias do torneio após declarar que “Médici escala o ministério, eu escalo a seleção”, numa referência à pressão para convocar Dadá Maravilha. Foi substituído por Zagallo, que atendeu ao pedido presidencial.
1994: título em meio ao Plano Real
Três décadas depois, o tetra nos Estados Unidos coincidiu com a adoção do Plano Real, lançado pelo governo Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor. A equipe de Romário, Bebeto e Dunga ajudou a alimentar sentimento de unidade nacional em um momento de hiperinflação e da morte de Ayrton Senna, embora especialistas apontem que o estilo pragmático da seleção reduziu a identificação do torcedor.
2002: pentacampeonato e transição política
Com Fernando Henrique Cardoso no poder, o penta na Coreia do Sul e no Japão ocorreu em cenário econômico estabilizado. A relação de FHC com o futebol era mais discreta, mas a equipe foi recebida no Planalto, onde o volante Vampeta protagonizou a conhecida cambalhota na rampa. Meses depois, Luiz Inácio Lula da Silva venceria sua primeira eleição presidencial, embalado por clima de otimismo.
2026: ano eleitoral reacende a disputa pelo simbolismo da camisa
Na atual temporada pré-eleitoral, o debate ressurgiu após o vídeo do PL e a declaração de Lula de que o Brasil “vive fase sem grandes ídolos”, apesar de ter chance de conquistar o hexa. Para o historiador Carlos Fico, da UFRJ, “apenas um governo pouco habilidoso deixaria de explorar uma eventual vitória” da seleção.
Assim, da celebração com vinho na taça Jules Rimet em 1958 ao uso de inteligência artificial para vincular Neymar a candidatos em 2026, o gramado continua sendo palco estratégico para diferentes projetos de poder.
Com informações de G1

