A cadeia produtiva do leite no Brasil vive uma transição: indicadores de qualidade, composição e rendimento industrial ganham espaço nas negociações, mas o volume captado continua essencial para a sustentabilidade financeira dos laticínios.
Qualidade ganha terreno, mas não substitui a quantidade
Em artigo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a pesquisadora Natália Grigol afirma que qualidade e volume são complementares. A qualidade eleva o valor por litro e o aproveitamento industrial; o volume, por sua vez, mantém as fábricas operando, dilui custos fixos e assegura a escala mínima.
Sólidos determinam rendimento industrial
Gordura e proteína presentes no leite influenciam diretamente a fabricação de queijos, manteiga e leite em pó. Dois lotes de igual volume podem gerar resultados diferentes na linha de produção, conforme a concentração de sólidos.
Normas reforçam pagamento por qualidade
Desde a Instrução Normativa 51 (2002) até as INs 76 e 77 (2018), a legislação tornou-se mais rigorosa. Itens como Contagem Bacteriana Total, Contagem de Células Somáticas, sólidos totais e lactose agora balizam bonificações e descontos aplicados pelos laticínios.
Pesquisa aponta preferência pela qualidade
<p Levantamento com 33 laticínios e cooperativas — responsáveis por cerca de 25% do leite industrializado no país — revela que 75,8% dos entrevistados consideram a qualidade mais relevante que a escala diária na aquisição da matéria-prima.
Escala ainda sustenta a operação das fábricas
Mesmo com a evolução dos parâmetros técnicos, grandes laticínios trabalharam na última década com utilização média de 65,5% da capacidade instalada, mantendo 34,5% ociosos. No mesmo período, o potencial produtivo nacional subiu apenas 1,4%, acirrando a disputa pelo leite.
Discussão sobre sólidos chega ao indicador do Cepea
No primeiro semestre de 2026, a base de dados do Cepea cobriu quatro em cada cinco litros captados no Rio Grande do Sul e três em cada cinco em Minas Gerais, segundo o IBGE. O debate agora concentra-se na integridade e rastreabilidade das informações enviadas pelos colaboradores.
Auditoria e tecnologia para garantir confiabilidade
Durante a Reunião Anual da Pesquisa do Preço do Leite ao Produtor, em agosto, foi proposta a realização de auditorias mensais e a adoção de uma API padronizada, com criptografia e rastreabilidade, para envio dos dados. A medida visa assegurar que o indicador reflita de forma fidedigna o mercado, mesmo que reduza o número de participantes.
Segundo o Cepea, a credibilidade do índice depende da responsabilidade conjunta entre o centro de pesquisa, que define métodos e verifica dados, e as empresas, que devem repassar informações verídicas e comprováveis.
Assim, enquanto o setor avança no pagamento por sólidos, mantém-se o desafio de garantir volume suficiente para ocupar as plantas industriais e sustentar a rentabilidade dos laticínios.
Com informações de Portal do Agronegócio

