Brasília — O Departamento de Estado dos Estados Unidos incluiu, na quinta-feira (28/5), o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) na lista de organizações terroristas internacionais, decisão vista no Palácio do Planalto como a mais dura derrota externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desde o aumento de tarifas imposto por Washington em 2025.
Pressão bolsonarista pesou
A medida foi adotada um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encerrar viagem a Washington, onde defendeu a classificação em reuniões com o presidente Donald Trump, o vice J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio. Há mais de um ano, o parlamentar vinha publicamente acusando o governo Lula de conivência com o crime organizado por se opor à designação.
Argumentos do governo brasileiro
O Ministério das Relações Exteriores advertia que a classificação poderia abrir espaço para ações militares estrangeiras sob alegação de combate ao terrorismo e ressaltava que a legislação nacional distingue facções criminosas de grupos terroristas. O Planalto também teme reflexos no sistema financeiro, caso empresas brasileiras sejam sancionadas por vínculos, ainda que indiretos, com as organizações.
Resposta em elaboração
Reuniões internas entre Itamaraty, Presidência e outras pastas devem definir, a partir desta sexta-feira (29/5), o tom da reacção oficial. A ideia é defender ações já adotadas contra o crime organizado e reiterar disposição para cooperação internacional, sem ampliar o desgaste político a poucos meses das eleições.
Como o tema avançou nos EUA
A discussão sobre sanções a facções brasileiras começou em Washington em 2021, quando o Tesouro incluiu o PCC como entidade sujeita a punições financeiras. O assunto ganhou força no segundo mandato de Trump, iniciado em 2025, e envolveu visitas de técnicos do Departamento de Estado ao Brasil para coleta de informações com promotores.
Em maio de 2025, David Gamble, então chefe interino de estratégia de sanções, e o assessor Ricardo Pitta estiveram no país e se encontraram com integrantes da família Bolsonaro, que já defendiam publicamente a designação. Em julho do mesmo ano, após o “tarifaço”, o governo Lula temia que a decisão viesse junto, o que não ocorreu.
No discurso de setembro de 2025 na Assembleia Geral da ONU, Lula criticou a possível equiparação entre criminalidade e terrorismo. O impasse seguiu até março de 2026, quando o portal UOL revelou que a medida estava prestes a sair. O Itamaraty intensificou a pressão, mas, apesar das negociações, não conseguiu reverter o quadro.
Viagem decisiva
A visita de Flávio Bolsonaro a Washington nesta semana reacendeu o tema. Após encontros na capital norte-americana, o senador declarou ter “batido na tecla” da necessidade de classificar CV e PCC como terroristas, alegando que um futuro governo aliado, a partir de 2027, cooperaria mais no combate às facções.
Assessores de Lula avaliam que a ala bolsonarista usou sua interlocução com Trump para criar constrangimento político ao Planalto, obrigando o governo a se posicionar contra a medida e, em seguida, ser acusado de proteger criminosos.
Com a decisão oficial dos EUA, PCC e CV passam a figurar na mesma lista que Al-Qaeda, Estado Islâmico e Hamas, sujeitas a bloqueio de bens e punições a quem mantiver relações financeiras com seus integrantes.
O Palácio do Planalto e o Itamaraty foram procurados, mas ainda não comentaram oficialmente a decisão norte-americana.
Com informações de G1

