Teerã – Menos de cinco meses depois do início da guerra com Estados Unidos e Israel, o Irã vive uma mudança de guarda. A morte do aiatolá Ali Khamenei, em fevereiro, abriu caminho para uma nova geração de dirigentes que agora conduz, ao mesmo tempo, as negociações de paz e a reconstrução interna.
Do cessar-fogo em Versalhes ao fim da trégua
O presidente norte-americano Donald Trump e o líder francês Emmanuel Macron firmaram um cessar-fogo de uma página e meia no Palácio de Versalhes, em Paris, no mês passado. A assinatura ocorreu durante um jantar na Galeria dos Espelhos, local que evocou comparações com o Tratado de Versalhes de 1919. A trégua, porém, durou pouco: em 8 de julho, após uma troca de ataques noturnos, Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo.
Um Irã devastado e em transformação
Os bombardeios conjuntos de Washington e Tel Aviv, iniciados em 28 de fevereiro, mataram parte expressiva da antiga cúpula iraniana, incluindo o então líder supremo Ali Khamenei (1939-2026). Seu corpo foi sepultado depois de cerimônias que se estenderam por uma semana. Desde então, o país enfrenta sérios danos em infraestrutura, economia fragilizada por décadas de sanções e protestos populares que ocorreram em janeiro.
Novo comando, nova abordagem
O posto máximo passou para Mojtaba Khamenei, 56 anos, filho do aiatolá. Ao lado dele atuam o presidente Masoud Pezeshkian, 71, o presidente do Parlamento e negociador-chefe Mohammad Bagher Ghalibaf, 69, e o comandante da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, 69. Todos são considerados “filhos da revolução” de 1979 e mantêm laços estreitos com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).
Analistas como Vali Nasr, da Universidade Johns Hopkins, avaliam que essa geração demonstra “disposição maior para agir” do que seus predecessores. O Irã atacou bases dos EUA no Bahrein, no Catar e no Kuwait, onde seis militares americanos morreram e centenas ficaram feridos. Também fechou o estreito de Ormuz, vital para o comércio global de petróleo, surpreendendo a Casa Branca.
Recuo dos aliados regionais de Teerã
A guerra enfraqueceu o chamado “Eixo da Resistência”. O regime sírio de Bashar al-Assad ruiu no fim de 2024; o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza sofreram baixas severas; e os houthis do Iêmen foram alvos de EUA, Reino Unido e Israel após dispararem mísseis contra navios no mar Vermelho.
Golfo repensa dependência dos EUA
O alcance dos mísseis iranianos levou países do Golfo a questionar o “guarda-chuva” de segurança americano. Relatos citados pela agência AFP indicam que a Arábia Saudita cogita uma “cúpula de reconciliação” com Teerã. Apesar dessa busca por aproximação, especialistas como Ali Vaez, do International Crisis Group, lembram que as nações do Golfo ainda dependem fortemente das forças norte-americanas.
Economia e incentivos para a paz
O Memorando de Entendimento assinado em Versalhes garante 60 dias de isenção a sanções dos EUA, permitindo ao Irã vender petróleo e derivados. O texto menciona ainda um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões e o possível descongelamento de ativos iranianos no exterior. Caso um acordo definitivo seja alcançado, todas as sanções internacionais podem ser suspensas.
Sinais contraditórios no front interno
A nova liderança mantém forte repressão a dissidentes, mas afrouxou algumas regras sociais: hijab deixou de ser obrigatório fora de prédios estatais e álcool circula discretamente em restaurantes da capital. Para Vali Nasr, o objetivo é restaurar a confiança interna após a violência de janeiro, quando milhares de jovens manifestantes morreram.
Donald Trump, que prometeu “ajuda a caminho” aos iranianos, exortou a população a “assumir o governo” depois da guerra. Por ora, essas declarações não se converteram em mudanças políticas substantivas.
Momento decisivo
Com a elite da Guarda Revolucionária no controle e o país à beira de um possível alívio econômico, Teerã tenta equilibrar pragmatismo interno e ambições regionais. Analistas descrevem o período como “maleável”, comparando-o à China pós-Mao: há chance de um “novo contrato social”, mas o resultado permanece incerto diante de décadas de desconfiança entre Irã, vizinhos árabes e Estados Unidos.
Enquanto o calendário avança para o fim do prazo de 60 dias, o destino das negociações – e da própria ordem no Oriente Médio – continua em aberto.
Com informações de BBC News Brasil

