Em meio a desentendimentos públicos e à aproximação do calendário eleitoral, pré-candidatos à Presidência da República intensificaram, nos últimos dias, discursos direcionados ao eleitorado feminino — que representa 52,85% dos votantes do país, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mulheres somam 82 milhões de eleitoras, ante 73,8 milhões de eleitores homens.
Crise no PL coloca tema em evidência
A recente divergência entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desencadeou a nova rodada de falas sobre a pauta feminina. Michelle relatou ter sido “desrespeitada” pelo enteado em conversas internas do partido. Flávio pediu desculpas, negou ter ofendido mulheres e, dias depois, realizou transmissão ao vivo defendendo políticas para o público feminino.
O episódio ganhou força após o youtuber Paulo Figueiredo — aliado do senador — afirmar que “mulher vota muito mal” e criticar Michelle. Flávio repudiou as declarações durante evento do PL Mulher em 1º de julho.
Flávio Bolsonaro
Senador desde 2019, Flávio passou a apresentar propostas focadas em mulheres a partir de 2025, como apoio a uma PEC pelo direito a uma vida livre de violência. Em 2026, protocolou projetos para criar unidades de atendimento exclusivo no SUS e permitir que delegados concedam medidas protetivas imediatas.
Na pré-campanha, o parlamentar defende prisão em flagrante e penas mais duras para agressores, além de castração química para estupradores. “Nós vamos aprovar castração química para estuprador. A gente vai defender as mulheres como tem que ser defendidas. Com força”, disse em ato no Pará, em junho.
Luiz Inácio Lula da Silva
Em 2 de julho, o presidente Lula (PT) anunciou intenção de elevar as penas para feminicídio durante evento no Rio Grande do Norte. Ele afirmou que “todo homem precisa saber que só existimos porque nascemos de uma mulher” e destacou o Pacto contra o Feminicídio, capitaneado pela primeira-dama Janja.
No atual mandato, Lula sancionou a lei de igualdade salarial e iniciou o governo com 11 ministras — número que caiu para oito após mudanças em abril deste ano. Entidades cobram a indicação de uma mulher negra ao Supremo Tribunal Federal; até agora, as três escolhas foram homens (Cristiano Zanin, Flávio Dino e Jorge Messias, rejeitado pelo Senado e a ser indicado novamente).
Para o próximo pleito, Lula prega maior participação de mulheres, sobretudo negras e jovens. Em entrevista a uma rádio de Uberlândia (MG), citou a deputada Dandara como exemplo de renovação.
Renan Santos
Pré-candidato pelo Missão, Renan Santos publicou vídeo em 1º de julho elogiando a jornalista Malu Gaspar, alvo de suposta tentativa de intimidação revelada por O Globo. “Pessoas como Malu Gaspar tornam o país um pouquinho melhor”, disse.
Renan já enfrentou críticas por declarações sobre mulheres. Em 2018, apareceu em vídeo estimulando um coro ofensivo; em 2022, defendeu Arthur do Val após áudios sexistas sobre ucranianas. Neste ano, a Justiça paulista manteve online postagens que mencionam boletim de ocorrência de 2021 em que uma mulher o acusava de estupro e violência doméstica — acusação depois retratada, segundo a defesa.
Em entrevistas, propõe aumento de penas para crimes violentos contra mulheres, punição maior a pais inadimplentes com pensão e manutenção do Bolsa Família para mães solo vulneráveis.
Romeu Zema
Ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato pelo Novo, Romeu Zema divulgou vídeo em 1º de julho associando a presença feminina na política à redução da corrupção. “Mulheres são mais honestas do que os homens”, afirmou, acrescentando que a “visão de futuro” feminina seria biológica.
Zema declara desejar uma mulher como vice, promete endurecer punições a agressores e defende regras distintas no Bolsa Família: manutenção ou ampliação do benefício para mulheres com filhos e exigência de curso ou trabalho a homens jovens. No dia 2, posicionou-se contra o projeto que inclui misoginia na Lei Antirracismo.
Durante seu governo, lançou o programa MG Mulher, com aplicativo de suporte a vítimas de violência e monitoramento de agressores; Minas conta, segundo a Polícia Civil, com 70 Delegacias de Atendimento à Mulher.
Ronaldo Caiado
Ex-governador de Goiás e pré-candidato pelo PSD, Ronaldo Caiado utiliza o tema da segurança para se aproximar de eleitoras. “Em briga de marido e mulher, eu meto algema”, declarou ao NeoFeed em 18 de junho, destacando pioneirismo no uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores.
Contrário a cotas obrigatórias para mulheres na política, Caiado sancionou em 2024 lei estadual que oferece ultrassom com batimentos cardíacos a gestantes que buscam aborto legal — medida contestada no STF pelo PSOL. Na pré-campanha, promete expandir o monitoramento por tornozeleiras e conceder auxílio-moradia e alimentação a vítimas de violência doméstica.
A disputa pelo voto feminino, maioria no eleitorado brasileiro, tornou-se eixo central da comunicação dos principais nomes da corrida ao Planalto, que buscam apresentar propostas e se afastar de controvérsias enquanto a pré-campanha ganha fôlego.
Com informações de G1

