A discussão sobre armamento atômico e meios de propulsão nuclear reapareceu no centro do debate eleitoral no país. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promete recursos para as Forças Armadas e reforça o plano de construir um submarino nuclear. De outro, o candidato Renan Santos (Missão) defende que o Brasil desenvolva sua própria bomba nuclear como instrumento de dissuasão.
Retomada do tema em cenário de nova corrida nuclear
Analistas consultados apontam que a tensão internacional aumentou a partir de 2021, quando satélites identificaram 120 silos para mísseis balísticos intercontinentais na China. A previsão de que Pequim disponha de cerca de 1.000 ogivas em 2030 levou Rússia e Estados Unidos a modernizarem seus arsenais e contribuiu para o fim do tratado New START, que limitava a 1.550 ogivas prontas para uso em cada lado.
Histórico brasileiro
O Brasil manteve um projeto secreto de arma nuclear entre as décadas de 1970 e 1990, encerrado com a Constituição de 1988. O tema voltou em 1998 com a candidatura de Enéas Carneiro (Prona), mas perdeu força. Agora, Renan Santos retoma a proposta, afirmando que o país precisa de capacidade atômica para ser levado a sério na geopolítica mundial.
Viabilidade e obstáculos da bomba
A constituição proíbe armas nucleares; uma mudança exigiria emenda constitucional tida como politicamente improvável. Especialistas divergem sobre o efeito dissuasório de um pequeno arsenal: para Roberto Motta, poucas ogivas teriam impacto irrelevante diante dos milhares de EUA e Rússia; já o coronel da reserva Nelson Ricardo Fernandes Silva lembra que mesmo número reduzido de bombas impediu ações diretas contra a Coreia do Norte, ainda que tenha isolado o país.
Outro entrave é a falta de vetores de lançamento estratégicos — mísseis de longo alcance, bombardeiros ou submarinos especializados — que o Brasil não possui nem pode adquirir facilmente.
Submarino nuclear: promessa desde 1979
Criado em 1979, o programa brasileiro de submarino nuclear ganhou novo impulso em 2008 com o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), firmado com a estatal francesa Naval Group. A parceria prevê quatro unidades convencionais da classe Scorpène — duas já operacionais e duas em testes — e um quinto casco nuclear, batizado Álvaro Alberto.
A França não repassará a tecnologia do reator; o Brasil tenta desenvolvê-lo. O cronograma aponta conclusão entre 2034 e 2035, mas não há indícios públicos de avanços no motor. Para evitar a suspensão de contratos, o governo antecipou cerca de R$ 1 bilhão em dezembro de 2025. O investimento anual no convênio varia de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões.
Enriquecimento de urânio e Angra 3
Desde 1987 o país domina a tecnologia de enriquecimento por ultracentrifugação. O minério extraído é convertido em gás na França e depois processado em Resende (RJ), abastecendo as usinas de Angra 1 (640 MW) e Angra 2 (1.350 MW).
Angra 3, iniciada há décadas, foi interrompida em 2015 após denúncias de corrupção. Estima-se que R$ 12 bilhões já tenham sido aplicados; a conclusão demandaria mais R$ 23 bilhões, enquanto a desistência acarretaria prejuízo calculado em R$ 21 bilhões. O programa de Renan Santos prevê retomar a obra; o plano de governo de Lula não faz menção direta.
Apesar de o domínio do ciclo nuclear civil ser condição técnica básica, a produção de armamento exigiria elevar o enriquecimento de urânio a níveis acima de 90% e desenvolver dispositivos de detonação — etapas não contempladas pelos atuais projetos de energia.
Assim, tanto a bomba quanto o submarino nuclear dependem de mudanças legais, recursos bilionários e acesso a tecnologias ainda fora do alcance brasileiro, o que coloca em dúvida a concretização das propostas enquanto o tema permanece como bandeira política de soberania.
Com informações de Gazeta do Povo

