O governo dos Estados Unidos deve anunciar até quarta-feira, 15 de julho de 2026, se aplicará uma tarifa extra de 25% a praticamente todos os produtos importados do Brasil. A medida é recomendação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) após uma investigação de um ano que considerou várias políticas brasileiras prejudiciais às empresas americanas, entre elas o modelo de pagamentos instantâneos Pix.
Se o acréscimo for confirmado, o Brasil passará da 13ª para a 2ª posição no ranking de países mais taxados pelo mercado norte-americano, ficando atrás apenas da China. O levantamento foi feito pela iniciativa Global Trade Alert (GTA), mantida pelo St. Gallen Endowment, na Suíça.
Impacto previsto
Atualmente, o Brasil enfrenta uma tarifa média efetiva de 11,73% nas vendas aos EUA. Com o novo patamar sugerido, o aumento médio seria de 18 pontos percentuais, atrás apenas do salto de 27 pontos aplicado às mercadorias chinesas no segundo mandato de Donald Trump, segundo cálculos do GTA.
Johannes Fritz, diretor do St. Gallen Endowment, afirma que o Brasil se tornou alvo mesmo não estando entre os dez maiores parceiros comerciais de Washington. Ele aponta elementos políticos, como a deterioração da relação entre Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em 2025 a 27 anos de prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, além de atritos na área de tecnologia.
Entre esses atritos estão decisões judiciais brasileiras que afetaram plataformas norte-americanas, como a retirada do ar da rede de vídeos Rumble em fevereiro de 2025 e o bloqueio do X em setembro de 2024.
Estrategia de negociação
Para Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, o anúncio costuma ser usado pela Casa Branca como pressão para abrir negociações. Ele lembra que os Estados Unidos vendem ao Brasil o dobro do que importam e, por isso, a justificativa de déficit comercial não se aplica. “A motivação é mais política e nacionalista”, avalia.
Investigação baseada na Seção 301
A apuração contra o Brasil foi aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento que permite retaliar práticas consideradas “injustas”. O relatório final do USTR propõe a tarifa de 25%, preservando algumas exceções listadas em anexo.
O documento, com 107 páginas, aponta seis áreas problemáticas:
- Serviços digitais e meios de pagamento: crítica ao Banco Central por atuar simultaneamente como regulador e operador do Pix e a decisões judiciais que determinaram remoção de conteúdo em redes sociais.
- Tarifas preferenciais: acordos pontuais com México e Índia teriam criado tratamento desigual para concorrentes americanos.
- Combate à corrupção: fiscalização tida como insuficiente.
- Propriedade intelectual: falhas na repressão a falsificações, demora na análise de patentes e pirataria recorrente.
- Ethanol: fim da reciprocidade tarifária desde 2017.
- Desmatamento ilegal: baixa efetividade na aplicação das leis existentes.
A Casa Branca recorreu à Seção 301 após a Suprema Corte invalidar, em fevereiro deste ano, o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 para impor tarifas mais amplas. Especialistas acreditam que o novo enquadramento tem maior chance de sobreviver a contestações judiciais.
A decisão final de Trump é aguardada por Brasília, que tenta conter o tarifaço mediante negociações de última hora.
Com informações de BBC News Brasil

