A decisão do governo dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em listas oficiais de grupos terroristas acendeu o alerta para possíveis reflexos sobre a economia do Brasil. Pesquisadores e integrantes do Ministério Público ouvidos pelo g1 afirmam que empresas e instituições financeiras nacionais podem ser alvo de ações judiciais e sanções em solo norte-americano.
Como funciona a nova classificação
As facções brasileiras foram adicionadas a duas categorias distintas. A primeira, Specially Designated Global Terrorists (SDGTs), já está em vigor e impede movimentações financeiras nos EUA. A segunda, Foreign Terrorist Organizations (FTOs), amplia o alcance ao permitir que cidadãos de qualquer país sejam processados nos tribunais norte-americanos caso mantenham relações com os grupos listados.
“A atividade financeira realizada no Brasil poderá ser questionada nos Estados Unidos, tanto na esfera cível quanto na criminal”, afirma Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo ele, políticos, empresários ou banqueiros brasileiros podem enfrentar ações mesmo que jamais tenham atuado em território norte-americano.
Operação Carbono Oculto expôs conexões no mercado financeiro
A Polícia Federal investiga, desde 28 de agosto de 2025, a infiltração de recursos ilícitos do PCC no sistema financeiro por meio da Operação Carbono Oculto. O promotor Lincoln Gakiya, que há 21 anos acompanha as ações da facção, relata que fintechs abriram “contas-bolsões” em grandes bancos para misturar dinheiro legal e ilegal.
O esquema, segundo as apurações, também utilizava postos de combustíveis e empresas como a Copape para lavar capitais, que depois eram direcionados a fundos da gestora Reag. “A Reag investe parte dos recursos no Banco Master, que negocia títulos com vários bancos de grande porte no país, os quais mantêm operações com instituições americanas. Pela interpretação da nova regra, esses bancos brasileiros poderiam ser sancionados”, explica Gakiya.
Entre as penalidades previstas estão o congelamento de ativos e a proibição de realizar qualquer transação com entidades dos EUA, algo considerado crítico para o setor financeiro nacional.
Impacto pode alcançar setores variados
Rodrigues lembra que o Brasil é a sétima maior economia do planeta e possui forte integração global. “Do sistema bancário ao turismo no Rio de Janeiro, passando pelo agronegócio, tecnologia e Bolsa de Valores, tudo pode ser afetado”, observa.
Um executivo de um grande banco brasileiro, ouvido sob condição de anonimato, minimizou os efeitos imediatos. Ele argumenta que as instituições instaladas no país já adotam programas robustos de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro, enquanto fintechs fora desse padrão sentiriam o maior peso das sanções.
De olho nessas movimentações, o Banco Central vem editando regras para aprimorar a identificação da origem dos recursos que circulam no sistema.
Antecedentes da medida
Grupos como o cartel de Sinaloa (México), o Trem de Arágua (Venezuela) e a Mara Salvatrucha (El Salvador) já figuravam nas mesmas listas desde 2025, após ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump. O PCC, por sua vez, estava desde 2021 em uma terceira relação do Departamento do Tesouro, que mira organizações criminosas internacionais e prevê confisco de bens dentro dos EUA.
Para Thiago Rodrigues, a presença do PCC em território norte-americano é “irrisória”, mas a nova classificação insere as facções brasileiras em uma narrativa de combate ao terrorismo que amplia o campo de intervenção dos Estados Unidos.
Com informações de G1

