A interrupção das operações da fintech Naskar Gestão de Ativos e o desaparecimento de seus três sócios reacenderam o alerta para fraudes financeiras no país. Levantamento mostra que, nos últimos 20 anos, os maiores esquemas de pirâmide identificados no Brasil movimentaram aproximadamente R$ 100 bilhões — quantia superior ao orçamento anual previsto para o Governo do Distrito Federal em 2026, de R$ 74,4 bilhões.
Principais golpes e valores envolvidos
GAS Consultoria (2021) – R$ 38 bilhões
Fundada por Glaidson Acácio dos Santos, o “Faraó dos Bitcoins”, a empresa prometia retorno mensal de 10% em criptomoedas. A Polícia Federal afirma que o dinheiro dos clientes nem sequer era reinvestido no setor. Glaidson está preso desde agosto de 2021, e a Justiça do Rio decretou a falência da companhia em 2025, com dívida de R$ 3,8 bilhões a 62 mil clientes.
Unick Forex (2019) – R$ 28 bilhões
Com sede em São Leopoldo (RS), a Unick trazia promessa de lucros de até 33% ao mês e bônus de 10% por indicação de novos investidores. A Operação Lamanai apontou dívida de R$ 12 bilhões; dez pessoas foram presas em 2019.
Atlas Quantum (2019) – R$ 7 bilhões
A fintech de criptomoedas ganhou projeção após campanhas com os artistas Cauã Reymond e Tatá Werneck. Deixou de pagar cerca de 200 mil pessoas no Brasil e no exterior, causando prejuízo estimado em R$ 7 bilhões. O criador, Rodrigo Marques dos Santos, foi multado em R$ 113 milhões.
Fazendas Reunidas Boi Gordo (anos 1990) – R$ 6 bilhões
O grupo vendia cotas de engorda de bois com garantia de retorno. O esquema dependia da entrada de novos investidores. Em 2024, o prejuízo era estimado em R$ 6 bilhões.
Telexfree (2013) – R$ 3 bilhões
Apresentada como marketing multinível, a empresa de telefonia via internet foi fundada em 2010 e chegou ao Brasil em 2012. Declarou falência em 2019, com ativos bloqueados de R$ 1 bilhão no país e montante ainda maior nos Estados Unidos.
Braiscompany (2023) – R$ 1,5 bilhão
A companhia paraibana movimentou R$ 1,5 bilhão em criptoativos em contas ligadas aos sócios. Antônio Neto Ais e a esposa foram presos em 2024 por crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e lavagem de dinheiro.
Avestruz Master (1998) – R$ 1 bilhão
Prometia retorno de 11% ao mês com a criação e abate de avestruzes. O negócio ruuiu em 2005; três sócios receberam pena de seis anos de prisão em 2019.
Outros episódios, como Trust Investing (2021), Rental Coins (2021), Grupo Bitcoin Banco (2019) e BBom (2013), também chamaram atenção de autoridades.
Avanço da investigação sobre a Naskar
Desde a divulgação do sumiço dos sócios José Maurício Volpato, Marcelo Liranco Arantes e Rogério Vieira, a Polícia Civil do Distrito Federal contabiliza 30 boletins de ocorrência. A corporação apura os fatos, mas ainda não centralizou os registros em uma delegacia específica.
Como funcionava a Naskar
Com 13 anos de existência, a fintech atraía clientes oferecendo rendimento fixo de 2% ao mês — bem acima das taxas praticadas por bancos tradicionais. O pagamento de maio, previsto para o dia 4, não foi realizado. Em 6 de maio, o aplicativo deixou de funcionar, e investidores não conseguiram acessar os valores aplicados.
A empresa, que já teve sede no Distrito Federal e depois se estabeleceu em São Paulo, mudou de endereço recentemente sem notificar os clientes. No dia 14 de maio, a Naskar anunciou ter sido comprada pela norte-americana Azara Capital por R$ 1,2 bilhão. O site da suposta compradora não apresenta executivos identificados, e o endereço informado em Miami corresponde a um banco comercial independente. O perfil da Azara no Instagram foi criado há apenas três meses.
Clientes ainda aguardam confirmação sobre quando, e se, o ressarcimento ocorrerá. Em nota divulgada em 11 de maio, a Naskar afirmou ter enviado e-mails a todos os investidores solicitando documentação para “entendimento da situação” e orientou quem não recebeu a mensagem a contatar o endereço auditoria@sejanaskar.com.br. Não há prazo definido para devolução dos recursos.
Com informações de Metrópoles

