Brasília – O Ministério das Relações Exteriores convocou nesta terça-feira (21) a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos, Kimberly Kelly, para prestar esclarecimentos sobre o pedido do governo norte-americano que determinou a saída do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho do território norte-americano.
A reunião, que durou cerca de uma hora, ocorreu no Palácio Itamaraty e contou com a presença do diretor do Departamento de América do Norte do MRE, Christiano Figueiroa. Em nota, a embaixada dos EUA afirmou que “não comenta conversas diplomáticas privadas”. Fontes da diplomacia brasileira confirmaram o encontro.
Pedidos de explicação
Na véspera, segunda-feira (20), o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos Estados Unidos divulgou que solicitara a saída de Carvalho. O delegado atuava desde março de 2023 como oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), em Miami, com mandato previsto para dois anos.
Sem citar nomes, o governo norte-americano publicou em rede social que um “funcionário brasileiro” tentou driblar pedidos formais de extradição para “estender perseguições políticas” em solo norte-americano. “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração (…). Hoje pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”, diz a nota.
Possível reciprocidade
Em viagem pela Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil busca entender o episódio antes de reagir, mas citou o princípio da reciprocidade. “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil”, declarou. Lula acrescentou que não aceitará “ingerência” nem “abuso de autoridade” contra o país.
O chanceler Mauro Vieira disse que aguarda esclarecimentos de Washington e assegurou que “todos sabiam” da atuação do delegado, considerada cooperação regular entre as polícias.
Missão e substituição
Carvalho tinha entre as atribuições localizar e prender foragidos da Justiça brasileira nos EUA. Em março de 2025, uma portaria prorrogou sua permanência até agosto deste ano.
A Polícia Federal já havia designado, em 17 de março, a delegada Tatiana Alves Torres para substituí-lo na função de oficial de ligação. Servidora desde 2002, Tatiana é formada em Direito pela UFMG, possui pós-graduação em Ciências Penais e Segurança Pública e atuou nas áreas de crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração. Ela é fluente em inglês e francês, tem nível intermediário de espanhol e, em 2023, chefiou a Superintendência da PF em Minas Gerais.
Contexto recente
O episódio ocorre poucos dias depois da detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem pelo ICE, em 13 de abril, em Orlando. A PF informou que ele fora detido por questões migratórias e encaminhado a um centro de detenção, sendo liberado dois dias depois. Em vídeo, Ramagem agradeceu aliados do ex-presidente Donald Trump e disse que a libertação ocorreu por via administrativa, sem decisão judicial nem fiança.
O Itamaraty aguarda as explicações formais dos Estados Unidos para definir eventuais medidas.
Com informações de G1

