Um levantamento do Observatório das Eleições revelou que 61% dos perfis políticos gerados por inteligência artificial, ativos entre janeiro de 2025 e abril de 2026, não informam ao público que são produtos de IA.
A pesquisa, conduzida pelas organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, mapeou 18 avatares virtuais utilizados para comentar política nas redes sociais. Desses, apenas sete traziam alguma forma de indicação sobre sua origem artificial, geralmente de maneira fragmentada: três contavam com marcadores automáticos das plataformas, dois exibiam marcas d’água das ferramentas de criação e outros dois usavam hashtags nas publicações.
Presença em múltiplas redes
Os personagens analisados foram encontrados principalmente no TikTok e no Instagram, com seis casos em cada aplicativo. YouTube registrou três ocorrências, enquanto X, Kwai e Facebook tiveram uma cada.
Conteúdo enganoso e alvos frequentes
Em 14 dos 18 perfis avaliados (78%), os pesquisadores identificaram alegações enganosas envolvendo autoridades públicas. Entre os principais alvos estão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
‘Dona Maria’ e ‘Seu Zé da Feira’
O avatar mais conhecido, “Dona Maria” – representado como uma idosa negra – publicou mais de 400 vídeos criticando o governo federal. As postagens motivaram ação no Tribunal Superior Eleitoral protocolada por PT, PV e PCdoB, que solicitam a suspensão dos perfis vinculados à personagem.
Em resposta, páginas alinhadas ao governo passaram a divulgar uma versão da mesma figura, mantendo a aparência, mas com discurso favorável ao presidente.
Já o “Seu Zé da Feira”, retratado como um feirante idoso negro, ganhou popularidade ao condenar políticos de direita e apoiar a gestão atual. Seus vídeos exibem marca d’água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e selo de conteúdo sintético aplicado pela plataforma.
Exigências do TSE
A resolução do Tribunal Superior Eleitoral determina que todo material criado ou editado por inteligência artificial nas campanhas de 2026 apresente aviso claro, em local de destaque, mencionando a tecnologia utilizada. No entanto, segundo os pesquisadores, a identificação da origem artificial ainda depende, em muitos casos, de análises técnicas como falhas de resolução, proporções incorretas ou distorções nos áudios.
Os autores do estudo destacam que a atuação desses avatares introduz um novo desafio ao debate público: perfis aparentemente humanos, mas inteiramente artificiais, capazes de influenciar a opinião política dos usuários.
Com informações de G1

