Brasília — Comprovantes bancários mostram que Gardênia Morais, secretária parlamentar no gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-SP) entre fevereiro de 2023 e maio de 2024, transferiu parte de seu salário ao então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, a parentes dele e a familiares do próprio parlamentar. Os registros incluem pagamentos realizados de fevereiro de 2023 a março de 2024.
Transferências mensais
Extratos do Banco do Brasil e do Itaú indicam que Gardênia recebia o salário na conta-salário do BB, movia o dinheiro para outra conta de sua titularidade no Itaú e, de lá, enviava valores via PIX. Os comprovantes apontam repasses que somam R$ 35.116:
- R$ 4.600 em 24.fev.2023 para Raphael Azevedo;
- R$ 5.000 em 31.mar.2023 para Azevedo;
- R$ 1.500 em 28.abr.2023 para Azevedo;
- R$ 3.200 em 15.mai.2023 para a ex-mulher de Azevedo;
- R$ 3.200 e R$ 816 em 03.jul.2023 para a ex-mulher e outra parente de Azevedo;
- Quatro PIX de R$ 3.200 em ago., set., out. e nov.2023 para a ex-mulher de Azevedo;
- R$ 4.000 em 06.mar.2024 para Azevedo.
Pagamentos a familiares de Frias
Além dos repasses ao ex-chefe de gabinete, Gardênia pagou R$ 1.000 à mãe do deputado, Maria Lucia Frias, em 29.jan.2024, e quitou fatura de cartão de crédito de R$ 4.832,32 da esposa de Frias, Juliana Frias, em dez.2023.
Empréstimos consignados e saque em espécie
A ex-funcionária contraiu cinco empréstimos consignados que totalizam R$ 174.886. Ela alega que apenas R$ 35 mil foram para uso pessoal; o restante teria sido solicitado para quitar dívidas de campanha de 2022. Todos estão em aberto, segundo ela.
Em 27.mar.2024, Gardênia sacou R$ 49.999,99 em espécie após receber três depósitos de R$ 50 mil feitos por Azevedo e pela esposa dele no dia anterior. Ela declarou que entregou o dinheiro, mas não revelou a quem.
Versões dos envolvidos
Gardênia diz que devolvia mensalmente parte do salário conforme acordo com Raphael Azevedo e com conhecimento de Mario Frias. Segundo ela, outros servidores também participariam do esquema.
O atual chefe de gabinete, Diego Ramos, afirmou desconhecer as suspeitas porque assumiu o posto após o período citado e disse ter “convicção de que Frias também não tem conhecimento”. Ramos relatou ter encaminhado os questionamentos ao deputado, que está no exterior. Frias não respondeu até a publicação.
Raphael Azevedo, que trabalhou no gabinete entre fev.2023 e fev.2024, não retornou aos contatos da reportagem.
A devolução de parte do salário de servidores a parlamentares é conhecida como “rachadinha”. Não há tipificação penal específica, mas casos desse tipo costumam ser enquadrados como peculato.
Com informações de G1

