A apuração que envolve o colapso do Banco Master e a atuação de seu controlador, Daniel Vorcaro, ainda se encontra nos estágios iniciais e deve avançar durante todo o ano de 2026, ultrapassando o período eleitoral. A estimativa é de fontes ligadas à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR), que não descartam novos desdobramentos caso o Supremo Tribunal Federal (STF) não determine a suspensão das investigações.
Operação Compliance Zero acumula três fases
Desde novembro, a PF deflagrou três etapas da Operação Compliance Zero, que resultaram na prisão de Vorcaro e de outros três investigados. Mesmo assim, os investigadores afirmam que a maior parte do material coletado — físico e digital — ainda aguarda perícia, o que indica novas fases e possíveis ampliações do inquérito.
Para o advogado constitucionalista André Marsiglia, o caso “tem potencial devastador e deve se prolongar além de outubro”, mês das eleições presidenciais. O também constitucionalista Alessandro Chiarottino avalia que caberá ao ministro André Mendonça, relator do processo no STF, definir os rumos da apuração em meio ao cenário eleitoral.
Centenas de dispositivos apreendidos
Nas três fases da operação, agentes federais recolheram cerca de 120 dispositivos eletrônicos, incluindo oito celulares de Vorcaro. Até agora, somente o telefone apreendido na primeira fase começou a ser periciado, e menos de 30% de seu conteúdo foi analisado. O especialista em segurança cibernética Luan Monteiro lembra que a extração de dados, recuperação de arquivos apagados e quebra de criptografia podem levar meses.
Possíveis crimes sob investigação
Entre as condutas investigadas estão gestão fraudulenta, emissão de títulos sem lastro, lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos, manipulação de mercado, invasão de sistemas, obstrução de justiça e ameaças. A economista Regina Martins destaca que o inquérito também verifica a ligação do Master com outras instituições financeiras e estruturas societárias usadas para movimentar recursos suspeitos.
Foco na relação com o BRB
A frente considerada mais adiantada apura operações entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB), que teria adquirido títulos bilionários ligados ao Master. A PF espera concluir essa parte até março. O BRB sustenta ter seguido normas de compliance e informado todos os negócios ao Banco Central e ao Ministério Público Federal.
Etapas e prazos da investigação
Fontes da PF e da PGR calculam de quatro a seis meses só para concluir a perícia do material já apreendido. No entanto, casos parecidos — como a Operação Lava Jato — mostram que inquéritos dessa complexidade podem durar anos, observa o ex-investigador federal Sérgio Gomes.
Gomes explica que o trabalho costuma avançar em três fases: análise inicial das provas, identificação de novos alvos e, por fim, elaboração de denúncias que são remetidas ao procurador-geral da República, responsável por decidir sobre eventuais pedidos de indiciamento ao STF.
Mensagens ampliam alcance das apurações
Mesmo a análise parcial de um dos celulares de Vorcaro já indicou suspeitas de conluio com autoridades, lavagem de dinheiro, acesso indevido a sistemas e intimidação de adversários. As mensagens também sugerem uma rede organizada para obter informações sigilosas, o que levou a PF a tratar os aparelhos como um “mapa” das conexões do empresário.
Repercussão política
Com as eleições se aproximando, partidos buscam distância do escândalo. Setores da oposição tentam associar o caso ao Palácio do Planalto, enquanto aliados do governo sustentam que a investigação só avança graças à atual gestão. O cientista político Gustavo Alves avalia que a crise pode reforçar o sentimento antipolítica e favorecer candidatos que se apresentem como outsiders.
Defesa questiona procedimento
A defesa de Vorcaro nega irregularidades, atribui a liquidação do banco a pressões de concorrentes e questiona a divulgação de mensagens antes de ter acesso integral ao material. Os advogados pediram ao STF a abertura de inquérito para apurar suposto vazamento de provas e alegaram falta de transparência na decretação da prisão do empresário.
O Banco Master também sustenta que não houve irregularidades nas transações com o BRB e afirma que o Banco Central tinha ciência prévia das operações.
Com a perícia ainda no começo e centenas de pessoas físicas e jurídicas sob análise, investigadores preveem um longo caminho até que o Ministério Público possa decidir sobre eventuais denúncias criminais.
Com informações de Gazeta do Povo

