Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, detalham encontros e conversas com autoridades do Executivo, do Congresso Nacional e de partidos do Centrão. O material, enviado à CPMI do INSS que apura fraudes no Banco Master, mostra como o empresário transitava entre diferentes núcleos de poder em Brasília.
Reunião no Planalto
Em 4 de dezembro de 2024, Vorcaro relatou à então namorada, Martha Graeff, uma “ótima e muito forte” reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo as mensagens, o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também foi chamado para o encontro, que não constou da agenda oficial. Vorcaro teria apresentado críticas à concentração bancária; Lula respondeu que disputas no setor deveriam ser analisadas pelo Banco Central. O encontro foi organizado pelo ex-ministro Guido Mantega, a pedido do próprio banqueiro.
Casa Civil e conexões na Bahia
Vorcaro afirmou que o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, participou da reunião com Lula. A ligação entre o ministro e o Master remonta a 2018, quando, durante o governo baiano de Costa, foi criado o cartão de crédito consignado Credcesta – depois incorporado ao Master.
Consultorias milionárias de Guido Mantega
Mantega atuou como consultor do Banco Master até semanas antes da liquidação da instituição, em novembro de 2025. Reportagem indica remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão, totalizando ao menos R$ 11 milhões. O ex-ministro nega irregularidades.
Ricardo Lewandowski e o contrato de R$ 6,5 milhões
O escritório do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski recebeu R$ 250 mil mensais do Master de 2023 a agosto de 2025, somando cerca de R$ 6,5 milhões. Lewandowski deixou a sociedade ao assumir o Ministério da Justiça em janeiro de 2024; dois filhos permaneceram no escritório. Ele afirma que se afastou de todas as atividades advocatícias enquanto esteve no governo.
Jaques Wagner: indicações e negações
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), participou em 2018 da venda da estatal Cesta do Povo para Augusto “Guga” Lima, ex-sócio de Vorcaro. Wagner nega envolvimento com irregularidades e diz ter apenas sugerido o nome de Lewandowski para prestar serviços jurídicos ao banco.
Presidentes do Congresso nas mensagens
- Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, foi citado por Vorcaro ao relatar um jantar na residência oficial com “Hugo e seis empresários”. O deputado não comentou.
- Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, foi mencionado em conversa que descreve uma reunião na residência oficial em agosto de 2025. A assessoria não se pronunciou.
Negociações com o DF
O governador Ibaneis Rocha (MDB) confirmou encontros com Vorcaro em 2024 e 2025 para discutir a possível compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). A transação foi vetada pelo Banco Central em 3 de setembro de 2025.
Outros políticos na “teia”
- João Doria enviou, em maio de 2025, mensagem de alerta a Vorcaro sobre rumores envolvendo o banco e sugeriu uma conversa.
- Ciro Nogueira (PP-PI) foi descrito por Vorcaro como “grande amigo”. O banqueiro celebrou proposta do senador para elevar o limite do FGC para R$ 1 milhão; a emenda não avançou. Nogueira diz manter diálogo com “centenas de pessoas”.
- Antônio Rueda, presidente do União Brasil, aparece em e-mail de 2024 sobre uso de helicóptero da empresa aérea Prime You, da qual Vorcaro era sócio. Parlamentares o apontam como obstáculo a uma CPI do Master; ele não respondeu.
- Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou avião da Prime You durante a campanha de 2022. O deputado afirma que o transporte foi contratado por organizadores do evento “Juventude pelo Brasil” e que, na época, não havia suspeitas contra Vorcaro.
- Jair Bolsonaro (PL) recebeu em 2022 doação de R$ 3 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Não há indícios de envolvimento do ex-presidente nas fraudes; em julho de 2024, Vorcaro o chamou de “idiota” em mensagem após postagem sobre o Master.
As conversas reforçam a amplitude das relações políticas de Vorcaro, investigado por fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master. A PF prossegue na análise do material, enquanto parlamentares discutem a instalação de CPIs para aprofundar o caso.
Com informações de Gazeta do Povo

