A biomédica Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), admitiu erros relevantes em seu pré-print sobre o uso da proteína polilaminina para tratar lesões na medula espinhal. A declaração foi dada ao portal G1 em entrevista publicada neste sábado (07).
Revisão completa do trabalho
O estudo, divulgado em 21 de fevereiro de 2024 no repositório medRxiv, reúne resultados de cerca de duas décadas de pesquisas. Segundo a autora, o texto foi colocado on-line apenas para “registrar autoria”, sem passar por revisão de outros cientistas, e agora será totalmente reescrito.
Principais falhas reconhecidas
Sampaio apontou três problemas centrais:
- Gráfico incompatível: um paciente aparece com melhora 400 dias após o procedimento, embora o artigo informe que ele morreu cinco dias depois; os dados pertenciam a outro voluntário.
- Imagens de exames confusas: eletromiografias divulgadas não evidenciavam evolução clínica; novas figuras serão incluídas.
- Texto mal estruturado: a pesquisadora afirmou que precisará detalhar melhor a metodologia e a interpretação dos resultados.
Críticas de especialistas
Pesquisadores independentes apontam outros pontos frágeis do trabalho:
- Ausência de grupo controle: não houve comparação entre pacientes tratados e não tratados.
- Intervenções combinadas: além da substância, os voluntários passaram por cirurgia e cerca de 200 h de fisioterapia intensiva, dificultando a atribuição da melhora à polilaminina.
- Possível risco à saúde: o artigo associa mortes por pneumonia e sepse a um eventual efeito imunossupressor da proteína.
Repercussão e investimentos
O estudo ganhou visibilidade após o paciente Bruno Drummond, lesionado em 2018, relatar que voltou a andar após o tratamento. A divulgação motivou mais de 40 ações judiciais; até agora, 19 pessoas receberam a aplicação por decisão da Justiça, fora de ensaios clínicos controlados.
A pesquisa já atraiu R$ 100 milhões da farmacêutica Cristália e tenta aprovação em periódicos científicos de alto impacto, depois de rejeições, inclusive pela revista Nature.
Próximos passos regulatórios
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em janeiro de 2026, o início dos estudos clínicos de Fase 1 em humanos, mas os testes ainda não foram iniciados.
Com informações de Olhar Digital

