No auge do Carnaval, o brilho característico do glitter volta a colorir ruas e blocos em todo o país. Por trás do efeito luminoso, porém, há um problema ambiental crescente: as minúsculas partículas plásticas que compõem a maior parte desses produtos alcançam rios e oceanos, ampliando a poluição que já pressiona a vida marinha.
Partículas quase invisíveis
Os fragmentos de glitter, medindo frações de milímetro, escapam facilmente pelo sistema de drenagem urbana. Em 2023, pesquisadores identificaram resíduos do produto no Rio Paraíba do Sul meses depois do Carnaval, sinal de que essas micropartículas se espalham rapidamente pelos cursos d’água.
Impactos no mar
Estudo da Escola de Ciências Naturais do Trinity College, em Dublin, publicado na revista Environmental Sciences Europe, mostrou que glitter feito de politereftalato de etileno (PET) pode atuar como ponto de nucleação para cristais de carbonato de cálcio. O processo interfere na biomineralização de corais, moluscos e ouriços-do-mar, comprometendo o crescimento desses organismos e, por consequência, a base das cadeias alimentares costeiras.
Além disso, ao se fragmentar em porções ainda menores, o glitter torna-se mais fácil de ser ingerido por várias espécies marinhas, ampliando o risco toxicológico.
Efeitos em organismos terrestres
Análises da Universidade de São Paulo (USP) indicam que microplásticos presentes no glitter podem conter metais ou adsorver poluentes, atingindo microrganismos e plantas aquáticas. Alterações na fotossíntese e no desenvolvimento de cianobactérias também foram relatadas, o que ameaça todo o equilíbrio de ecossistemas de água doce e estuarinos.
Alternativas vegetais
Para reduzir o impacto, empresas e pesquisadores investem em versões de glitter produzidas a partir de celulose. Testes com nanocristais de celulose mostram que o material se degrada mais rápido no ambiente e não afetou a reprodução de springtails — pequenos insetos que auxiliam na decomposição da matéria orgânica no solo. No mesmo ensaio, o glitter de PET diminuiu significativamente a taxa reprodutiva desses animais.
Especialistas alertam, contudo, que a rotulagem “biodegradável” não garante decomposição imediata. Algumas fórmulas permanecem intactas por semanas em água, dependendo de condições específicas de temperatura, umidade e luminosidade.
Redução de descartáveis
Pesquisadores e ambientalistas defendem que, além da escolha por materiais menos nocivos, a diminuição do consumo de itens descartáveis é fundamental para proteger a biodiversidade. A recomendação vale não apenas para a temporada de folia, mas para o dia a dia, em que o uso de plásticos de uso único segue elevado.
Enquanto foliões buscam alternativas mais sustentáveis, cientistas mantêm o alerta: o brilho das festas não pode custar a saúde de rios e oceanos.
Com informações de Olhar Digital

