Passados 12 meses da chegada ao Brasil do primeiro voo com deportados na chamada “era Trump 2.0”, as denúncias de violações de direitos humanos contra 88 brasileiros continuam sem investigação efetiva e sem responsáveis identificados.
O que aconteceu
A aeronave fretada pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) decolou da Louisiana, Estados Unidos, na madrugada de 24 de janeiro de 2025, transportando 158 passageiros – 88 deles brasileiros. Falhas mecânicas, problemas no sistema de ar-condicionado e fumaça na cabine obrigaram um pouso de emergência em Manaus (AM).
Algemados e com correntes nos pés, alguns passageiros subiram na asa do avião para denunciar agressões, uso prolongado de restrições físicas, impedimento de acesso ao banheiro e xingamentos proferidos por agentes norte-americanos. As imagens repercutiram e geraram a primeira crise diplomática entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Transferência para Minas Gerais
A Força Aérea Brasileira (FAB) concluiu o trajeto, levando o grupo até o Aeroporto Internacional de Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde todos desembarcaram em 25 de janeiro de 2025. Lá, relataram à imprensa agressões físicas, pânico generalizado e condições insalubres a bordo.
Recorde de deportações em 2025
O primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump registrou 3.526 brasileiros deportados em 37 voos que pousaram no país nas seguintes datas:
Janeiro: 26
Fevereiro: 7 e 21
Março: 15 e 28
Abril: 11 e 25
Maio: 9 e 24
Junho: 7 e 21
Julho: 2, 4, 18 e 25
Agosto: 7, 13, 20 e dois voos em 27
Setembro: 3, 10, 17 e 24
Outubro: 1, 8, 15, 22 e 29
Novembro: 5, 12, 19 e 27
Dezembro: 7, 14, 22 e 31
Promessas oficiais
O governo brasileiro classificou o episódio como “grave desrespeito” aos direitos fundamentais. A então ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, prometeu rigor na apuração. O Itamaraty declarou que buscaria esclarecimentos junto a Washington, e parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Câmara exigiram providências.
Investigações travadas
Um ano depois, não há desdobramentos concretos. Em nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) afirma que acompanha os relatos, mas depende de articulação com outros órgãos, como o Ministério das Relações Exteriores, para avançar em eventuais medidas investigativas ou diplomáticas. Questionado, o Itamaraty não respondeu.
Ações de acolhimento
Como resposta administrativa, o MDHC lançou em agosto de 2025 o Programa Aqui é Brasil, voltado ao atendimento psicossocial, orientação de acesso a políticas públicas e integração socioeconômica de repatriados. Segundo a pasta, 3.010 pessoas vindas dos EUA já foram atendidas.
Para 2026, está prevista a instalação de um Centro de Referência em Direitos Humanos e Fronteiras no Aeroporto de Confins. Passageiros do voo de janeiro, porém, afirmam que jamais foram contatados por autoridades após deixarem o terminal e relatam dificuldades de comunicação com o consulado brasileiro enquanto estavam detidos nos Estados Unidos.
Sem uma investigação articulada entre os órgãos competentes, o episódio permanece sem responsabilização e as denúncias continuam sem resposta.
Com informações de Metrópoles

