O governo brasileiro retoma nesta quinta-feira (5), em Brasília, a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), suspensa desde 2015. A presença do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, de oito ministros, três vice-ministros e empresários do Kremlin reacende o debate sobre possíveis reflexos na relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Pressão norte-americana
Desde a invasão russa à Ucrânia, Washington vem cobrando países latino-americanos a limitar a influência de Moscou e Pequim. A estratégia externa divulgada pela Casa Branca em dezembro passado coloca a região como prioridade e prevê tarifas adicionais a nações que adotem posições consideradas “antiamericanas”. Em 2025, o governo Trump já havia elevado impostos sobre produtos brasileiros após críticas de Lula ao dólar.
Pautas da reunião
Segundo fontes diplomáticas, os russos pretendem:
- garantir a continuidade da exportação de fertilizantes ao Brasil, produto central na balança bilateral;
- negociar mecanismos de pagamento em moedas locais, alternativa que reduziria o uso do dólar.
Oficialmente, o Itamaraty afirma que o encontro busca “diversificação de parcerias” e defesa do multilateralismo.
Riscos apontados por analistas
Especialistas ouvidos avaliam que a aproximação com Moscou poderá ser interpretada em Washington como sinal de alinhamento político:
- Ricardo Caichiolo, diretor do Ibmec Brasília, destaca que a neutralidade perdeu espaço e qualquer movimento pró-Rússia é visto como escolha de lado pelos EUA.
- Paulo Bilynskyj (PL-SP) afirma que o Brasil se coloca numa “posição vulnerável” ao se aproximar de um país sancionado por Estados Unidos e Europa.
- Cezar Roedel, mestre pela UFRGS, avalia que permanecer numa zona cinzenta geopolítica pode resultar em sanções ou queda de prioridade na agenda norte-americana.
- Elton Gomes, professor da UFPI, sustenta que o Brasil tem pouco a ganhar economicamente com a Rússia e muito a perder caso venha a sofrer retaliações comerciais dos EUA.
BRICS no centro do confronto
A condução brasileira no BRICS — agora ampliado para Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos — também preocupa Washington. Propostas de ampliar o comércio em moedas locais atingem diretamente o dólar, ressaltam analistas. O governo Trump já sinalizou tarifas extras a integrantes do bloco que adotem medidas vistas como hostis.
Clima eleitoral
A disputa presidencial de 2026 deve intensificar o uso da política externa no debate interno. Roedel prevê que a oposição poderá explorar o encontro com Vladimir Putin e a reunião CAN para associar o governo Lula a regimes autoritários. Para Gomes, contudo, a capacidade russa de interferir no pleito brasileiro é limitada e tende a se concentrar em trocas de inteligência, não em campanhas de desinformação.
Apesar das críticas, especialistas afirmam que o Brasil ainda pode equilibrar laços com Moscou e Washington, desde que mantenha pragmatismo econômico e diplomático.
Com informações de Gazeta do Povo

