A megaoperação realizada na terça-feira (28) nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, deixou quatro policiais mortos, ao menos 60 suspeitos baleados fatalmente, 81 pessoas presas e mais de 90 fuzis apreendidos. Analistas de segurança pública ouvidos por veículos da imprensa avaliam que o alto número de mortes era inevitável diante da estrutura armada mantida pelo Comando Vermelho na região, considerada o principal reduto da facção no estado.
De acordo com o governo fluminense, cerca de 2,5 mil agentes participaram da ação, apoiados por dois helicópteros, 32 veículos blindados e 12 máquinas usadas para remover barricadas. Relatos dão conta de que criminosos recorreram inclusive a drones improvisados para lançar explosivos sobre as forças policiais.
Planejamento e justificativa
O governador Cláudio Castro (PL) afirmou que a operação vinha sendo preparada havia 60 dias para cumprir aproximadamente cem mandados de prisão expedidos pela Justiça, inclusive contra lideranças do tráfico. Pelo menos dois chefes do Comando Vermelho teriam sido capturados.
Castro disse ainda que solicitou apoio federal em três ocasiões anteriores — inclusive veículos blindados das Forças Armadas — mas recebeu negativas. O Ministério da Defesa confirma apenas um pedido, feito em janeiro, e justifica a recusa pela ausência de decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
Críticas e defesa da ação
O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, questionou o grau de planejamento e a integração entre as forças de segurança, sugerindo maior uso de inteligência para reduzir a letalidade. Para especialistas como Alessandro Visacro, autor de estudos sobre guerra irregular, mesmo ações baseadas em informação avançada não eliminariam o confronto: “São grupos com centenas de homens, armamento moderno e vasto estoque de munição”, afirmou.
George Divério, do think tank Iniciativa Dex, reforçou que intervenções de grande porte precisam ocorrer periodicamente para evitar a consolidação de “Estados paralelos” nas comunidades. Já o coronel da reserva Fernando Montenegro, que comandou a ocupação militar da mesma área em 2010, avaliou que a presença das Forças Armadas, com equipamentos de guerra eletrônica, drones próprios e atiradores de elite, poderia ter reduzido a resistência criminosa.
ADPF das Favelas em debate
Após a operação, Castro voltou a criticar a ADPF 635, decisão do Supremo Tribunal Federal que restringiu, durante cinco anos, ações policiais em favelas cariocas. Segundo analistas, o período de limitação operacional permitiu às facções acumular armas, erguer barreiras físicas e instalar pontos de observação. Em abril, o STF flexibilizou parte das regras, mas Defensoria Pública e PSB recorreram para restabelecer as restrições.
Imagem: Luis Kawaguti Aline Rechmann Wesle
Repercussão política
No Congresso, parlamentares de oposição acusaram o governo federal de omissão e pediram a convocação de Lewandowski para explicar a ausência de apoio. Governistas, por sua vez, sustentam que o Palácio do Planalto não recebeu solicitação formal para esta ação específica e acusam Castro de usar a crise como palanque político.
Efeitos na cidade
Além dos confrontos armados, a ofensiva afetou a rotina do Rio: avenidas foram fechadas, linhas de metrô suspensas e comerciantes do centro popular do Saara baixaram as portas durante a tarde, temendo novos tiroteios.
Especialistas ouvidos pelo setor de segurança pública advertem que, sem um esforço integrado que inclua políticas sociais, econômicas e de infraestrutura, operações desse tipo continuarão a ocorrer de forma recorrente, sempre com risco elevado de mortes e repercussão política.
Com informações de Gazeta do Povo

