São Paulo – A liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado, trouxe à tona fragilidades do modelo de garantia oferecido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Cerca de 800 mil investidores aguardam – ou já aguardaram – ressarcimento de valores aplicados em CDBs e outros títulos da instituição, cujas vendas eram embaladas pela promessa de “proteção integral” até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Investidores surpreendidos
Sem experiência no mercado financeiro, a au pair Marina*, 27 anos, residente em Nova York, investiu R$ 10 mil em um CDB do Master após buscar recomendações no ChatGPT. Com a quebra do banco, ela precisou acionar o FGC. “Quando vi o valor creditado, fiquei aliviada”, relatou. O reembolso levou menos de 24 horas, mas milhares de correntistas ainda não tiveram o mesmo desfecho.
O analista Alexandre Gonçalves, 29 anos, também confiou nos selos de segurança exibidos por sua corretora e aportou R$ 15 mil em papéis do Master que prometiam 140% do CDI. O dinheiro só voltou à sua conta quatro dias depois da liberação dos pedidos de ressarcimento, meses após a intervenção.
Como funciona a proteção
Criado em 1995, o FGC atua como um seguro para depósitos e aplicações em bancos. O limite individual é de até R$ 250 mil por conglomerado financeiro e de R$ 1 milhão a cada quatro anos, já somados rendimentos até a data da liquidação.
Especialistas ouvidos apontam que plataformas de investimento passaram a usar a cobertura como argumento de venda, reduzindo a percepção de risco entre investidores iniciantes. “Todo investimento envolve risco, mesmo com o FGC”, afirma a economista Ione Amorim, do Idec.
Conta bilionária
Além do Master, Will Bank e Banco Pleno – do mesmo grupo – também estão em liquidação. Somados, exigirão cerca de R$ 51 bilhões do FGC. Até agora, o fundo desembolsou R$ 37,2 bilhões, atendendo 653 mil credores do Master (84% do total). Os casos pendentes envolvem empresas, menores de idade e inventários.
Reforço no caixa
Antes da crise, o FGC dispunha de pouco mais de R$ 140 bilhões. Para recompor o patrimônio, o fundo discute:
- Antecipar o equivalente a 60 meses de contribuições dos bancos já em 2026, além de 12 meses extras em 2027 e 12 meses em 2028;
- Criar uma cobrança adicional sem prazo para terminar;
- Negociar com o Banco Central a utilização de parte do depósito compulsório para reforçar os recursos.
Hoje, as instituições pagam 0,01% ao mês sobre o saldo de depósitos cobertos; em agosto, o Conselho Monetário Nacional instituiu taxa de 0,02% para bancos considerados mais arriscados. Para o economista Armando Castelar, da FGV Ibre, a contribuição deveria variar ainda mais de acordo com o risco de cada instituição.
Riscos para o crédito
Advogados como Roberto Panucci alertam que, embora o FGC devolva o principal, o rendimento prometido se perde durante o período de bloqueio dos recursos, podendo resultar em ganho real negativo. Além disso, o aumento de custos tende a refletir em tarifas, juros mais altos e oferta de crédito mais restrita, avalia Ione Amorim.
*Nome fictício para preservar a identidade da fonte.
Com informações de G1

