Brasília — Enquanto o Banco Central (BC) e a Polícia Federal (PF) avançavam em apurações sobre operações do Banco Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro, um grupo informal de parlamentares, apelidado nos bastidores de “Bancada do Master”, apresentou iniciativas no Congresso para limitar o alcance das investigações.
Proposta para elevar a cobertura do FGC
A primeira manobra ocorreu em 2024, quando o senador Ciro Nogueira (PP-PI) incluiu na PEC da autonomia financeira do BC emenda que ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Especialistas apontaram que a mudança beneficiaria bancos médios com forte captação lastreada no fundo, perfil em que se enquadrava o Master. O relator, senador Plínio Valério (PSDB-AM), rejeitou a emenda.
Com a liquidação do Banco Master pelo BC, os desembolsos do FGC podem chegar a R$ 46,9 bilhões, valor equivalente a quase 40% da liquidez da instituição em junho de 2025 (R$ 121 bilhões). Em depoimento à PF, Vorcaro afirmou que o modelo de negócios do banco era “100% baseado no FGC”.
Tentativa de pressionar o Banco Central
Em setembro de 2025, pouco antes de o BC vetar a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou requerimento de urgência para votar projeto que autoriza o Congresso a destituir presidentes e diretores do BC. A proposta, parada há anos, ganhou apoio dos líderes de MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos, mas foi retirada de pauta após críticas de autoridades econômicas.
PEC da Blindagem
No mesmo mês, Cajado relatou a chamada PEC da Blindagem, que concederia foro privilegiado a dirigentes partidários. A proposta avançou rapidamente na Câmara sob patrocínio do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), mas foi barrada no Senado. Para senadores ouvidos pela reportagem, a coincidência entre a tramitação acelerada e o avanço das investigações reforçou a ideia de proteção a políticos ligados ao caso.
Resistência à CPI do Master
Parlamentares da oposição tentam instalar uma CPI sobre o Banco Master, mas relatam pressão para retirada de assinaturas. O presidente do União Brasil, Antônio Rueda, é apontado como um dos principais obstáculos. Motta declarou que o pedido seguirá a ordem cronológica de CPIs na Câmara. No Senado, o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) também sinalizou não apoiar o colegiado.
Investimentos da Amprev sob investigação
Operação da PF colocou no centro das apurações o diretor-presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Silva Lemos, indicado por Alcolumbre. O órgão investiu quase R$ 400 milhões em letras financeiras do Master em 2024, apesar de alertas do Ministério Público Federal e do Tribunal de Contas da União (TCU). A Amprev afirma buscar ressarcimento integral e já obteve bloqueio judicial de repasses ao banco.
Alcolumbre nega envolvimento nas decisões da Amprev. O conselho fiscal do órgão inclui o irmão do senador, Alberto Alcolumbre, que não se manifestou.
Denúncia de pressão sobre o TCU
O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), acusou líderes da Câmara e integrantes do Centrão de pressionarem o TCU a aprovar a tentativa de compra do Master pelo BRB. Segundo ele, a ofensiva incluiu a proposta de elevar a cobertura do FGC e a mudança na lei de autonomia do BC.
Até o fechamento desta reportagem, os parlamentares e partidos mencionados não responderam aos pedidos de posicionamento.
Com informações de Gazeta do Povo

