O professor e consultor financeiro Michael Viriato declarou que a atual configuração do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estimula o surgimento de banqueiros dispostos a correr riscos elevados, a exemplo de Daniel Vorcaro, preso pela segunda vez na quarta-feira (4) durante a terceira fase da Operação Compliance Zero.
Vorcaro é investigado por supostas fraudes bilionárias no sistema financeiro nacional por meio do Banco Master. Desde novembro de 2025, o Banco Central liquidou o próprio Master, o Will Bank, o Pleno e a gestora de investimentos Reag, todos ligados direta ou indiretamente ao banqueiro. O rombo previsto para o FGC com essas quebras chega a R$ 51 bilhões, o maior desembolso desde a criação do fundo, em 1995.
Na operação de quarta-feira, foram presos ainda outros três suspeitos de monitorar e ameaçar adversários de Vorcaro, além de dois servidores do Banco Central apontados como colaboradores do esquema.
Segundo Viriato, o FGC cumpre papel essencial ao resguardar depósitos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, evitando corridas bancárias. Entretanto, a cobertura total dentro desse limite levaria pequenos investidores a ignorar a solidez das instituições e focar apenas nas taxas de retorno. “Isso faz com que aplicações mais bem remuneradas, geralmente oferecidas por bancos mais frágeis, recebam mais recursos”, explicou.
Do lado dos bancos, acrescentou o especialista, a existência do seguro permite que gestores agressivos ofereçam remunerações acima da média para captar dinheiro e, em seguida, adotem estratégias cada vez mais arriscadas para honrar essas promessas. Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro confirmou depender dessa lógica: “O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC”, disse.
Para reduzir os incentivos considerados perversos, Viriato sugere diminuir o percentual coberto pelo FGC ou elevar o custo do seguro para instituições que captam recursos protegidos. Hoje, estimou, entre 70% e 80% do dinheiro do fundo provém dos cinco maiores bancos do país, que acabam arcando com a maior parte das quebras.
Questionado sobre a suspeita de envolvimento de funcionários do Banco Central com Vorcaro, Viriato disse não ver dano estrutural à reputação da autarquia. Para ele, é preciso distinguir a conduta individual dos servidores da atuação institucional: “O BC continua sólido e tomou decisões corretas”, afirmou.
Viriato concluiu que, sem alterações no desenho do FGC, o mercado permanece suscetível a novos casos semelhantes. “O sistema não previne; ele incentiva”, resumiu.
Com informações de G1
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